Amores que ferem

Há muito acredito que os “olhos são o espelho da alma”. Para mim os olhos falam muito mais do que aquilo que é dito por palavras. Aprendi a reconhecer as pessoas pelos olhos e sou fascinada para desvendar as histórias que os olhares trazem.
Recentemente atendi uma família e os olhos de um menino foi o que mais me impressionaram nesse encontro. Aquele olhar não se apagou de minha memória, acompanhou-me incessantemente durante dias, fazendo-me mergulhar fundo na busca de seu significado.
O menino e sua mãe não só entraram em minha sala quando eu os recebi, mas entraram em minha vida quando eu os conheci.
À primeira vista, era a história mais comum da maioria dos meninos do Brasil, criados na periferia de São Paulo, vivendo desde cedo a precariedade e as limitações do Ensino Público.
Matheus aos 11 anos frenquentava a Escola, porém ainda não havia sido alfabetizado, sabia ler, mas não escrever.
Embora ele ainda mantivesse interesse pela escola, a escola por sua vez há muito perdera o interesse por ele. Sua mãe já não sabia o que fazer e foi assim que conheci o menino.
Gosto de chamá-lo de menino, mas ele, gostava mesmo de ser chamado pelo sobrenome do seu padrasto, Albuquerque e assim pediu-me que lhe chamasse. Seus amigos mais próximos chamavam-no de Matheus, seu único irmão de três anos, chamava-o de Teteu, mas na escola e outros espaços ele era o Albuquerque. Perguntei-me: O que faz um menino querer ser chamado por um nome de adulto? Um nome tão forte! E, ainda por cima o sobrenome do padrasto? Que história esse menino esta construindo junto a esse homem? E que sabe ele de seu pai biológico e de seu nome?
Bem, dos olhos de Albuquerque lembro-me bem, mas lá eu nunca vi um Albuquerque, eu só encontrava um menino, o menino Matheus, aquele que seus amigos também viam.
Daqueles olhos brotavam lágrimas como gotas de orvalho nas manhãs frias dos roçados e, antes que escorregassem para lavar seu rosto e assim sua alma, penduravam-se tímidas e lá permaneciam grudadinhas, para que se ninguém as vissem, pudessem ser novamente tragadas de volta ao leito daqueles olhos marejados pela dor.
As lágrimas de Matheus tinham o gosto forte de sal que há muito apagaram o sorriso de seu rosto. Seus olhos procuravam sem trégua os olhos de sua mãe e neles havia uma correspondência muda de tristeza e medo. Sem que eles precisassem falar, havia uma cumplicidade e somente os dois sabiam daquelas emoções.
Não menos emocionada do que eles, senti-me inundada por toda aquela emoção que a princípio era deles mas, agora também minha, e perguntei-lhes que sentimentos eram aqueles que ambos traziam nos olhos, e num instante Matheus pode trazer toda a tristeza e medo que há tempos aprisionava.
Assim contou-me que queria ser um Albuquerque. Para ele um herói! Profissão, moto-boy. Era um homem rude, forte como as pedras das estradas e duro na queda, porque mesmo que caísse diariamente “ralando-se” e ferindo-se no asfalto, levantava-se para esperar o próximo tombo, e assim Matheus ia aprendendo com ele a coragem. Dele tirava forças para continuar sobre suas pernas frágeis até se constituir como um homem, porém, o que tudo indicava, era que Matheus não tinha tempo para esperar maturar o embrião do homem que trazia, tinha que antecipar seu crescimento, pois, quando o Herói era tomado pela bebida, arriscando sua vida, fazendo malabarismo no trânsito, tropeçando sobre suas próprias pernas e sobre sua língua encharcada pelo álcool, enviava ao menino, mensagens que chegavam como ordens. O que o menino mesmo não ouvindo pensava, é que seu Herói podia morrer e não mais voltar para casa. Albuquerque esperava sem dormir, com seus olhos negros arregalados pelo medo, noite após noite este homem equilibrista voltar para casa. Mas até quando?
Tomar conta da mãe e do irmão era a crença que foi tecendo e mantendo e assim ocupava-se dessa tarefa, que foi iniciada aos 2 anos de idade quando seu pai biológico foi morto por tiros ficando ele sozinho com sua mãe.
O mundo das crenças de Matheus era habitado pelo fantasma da morte. Ele tinha que ser o guardião daquela família, o pânico e a tristeza se sentavam com Matheus na sala de aula. Como poderia o menino aprender alguma coisa se sua mente ocupava-se de vigiar essa família?
Matheus foi violentado na sua alma de criança. Seu Herói destruía o que Matheus tinha de mais belo em seu Ser, a Alegria e o Prazer pelas coisas da vida.Em troca entregava-lhe a responsabilidade, o medo e a tristeza.
Muitas vezes os adultos imaginam que a violência contra a criança é aquela contra o corpo, ou as palavras grosseiras, as desqualificações, os maus tratos. A violência à alma da criança em nome de prepará-la para a vida, passando-lhes atribuições prematuras a sua capacidade emocional, é o que eu chamo de “Amores que ferem”.

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