A DITADURA DO GOZO
Os casos extraconjugais são
Uma expressão da nossa liberdade sexual?
Do nosso interesse na diversidade?
Ou
Uma forma mais fácil de não nos tornarmos mais íntimos com os nossos parceiros?
Vivemos implicados nos paradoxos da nossa natureza humana e nos desafios para sustentar o romance e as relações de parceria.
Hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade.
Historicamente percebemos que o que restou do amor romântico foi a robustez do erótico a qualquer preço.
O sentimento mais frágil que liga o casal, o compromisso, a cumplicidade, a intimidade, o cuidado, o interesse genuíno pelo outro, a segurança, o conforto, a convivência, a familiaridade estão condenados à brevidade, à crise.
A fragilidade dos vínculos – Apertar e afrouxar laços
Na modernidade, homens e mulheres vivem a fragilidade dos vínculos humanos. À medida que anseiam pela segurança do convívio, num movimento desesperado por relacionar-se, desconfiam da condição de estar ligados permanentemente. Vivem, assim, atormentados por desejos conflitantes de apertar os laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Esses profundos sentimentos de ambivalência revelam o temor dos encargos e tensões que a condição de estar ligado pode trazer. A perda da liberdade resulta num preço excessivo e inaceitável.
Paralelamente, os relacionamentos se encontram no topo da agenda existencial do indivíduo.
No desejo de relacionar-se, o indivíduo procura paradoxalmente manter os vínculos frouxos, na tentativa de não limitar a liberdade de que necessita. A incapacidade de escolha entre esperanças e temores paralisa o ser humano. A inabilidade de agir é resultado da dificuldade de suportar os momentos mais amargos que estão simultaneamente relacionados ao desfrutar das delícias de um relacionamento.
Comer do bolo e conservá-lo
No mundo moderno, queremos comer do bolo e ao mesmo tempo conservá-lo. Desfrutar dos bons momentos sem o ônus dos momentos amargos. Satisfazer sem oprimir, permitir sem desautorizar. O que aprendemos é: deseja-se se relacionar, mantenha distância; quer-se usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas abertas. O compromisso de longo prazo é uma grande armadilha que deve ser evitada no esforço por relacionar-se.
A vida nos foi dada para vivê-la e todos queremos ter uma vida rica de significados, ou seja, gostaríamos de sustentar a paixão e o amor. Muitos de nós temos o desejo de nos envolver com as questões do amor e de sustentar a paixão com as pessoas.
O amor romântico
O movimento romântico revolucionou o pensamento, assim como as artes em direção à paixão, à tragédia e ao significado pessoal da vida. Segundo Isaias Berlim, foi ”o mais profundo e duradouro movimento de mudança na vida do Ocidente”.
Iremos explorar os caminhos percorridos, a maneira como essa mudança histórica transformou a experiência da vida individual das pessoas no nosso tempo.
Cabe aqui falar das idealizações como uma manifestação metafísica do mundo, ou seja, uma construção imaginária. A idealização corresponde ao empobrecimento da vida, na medida em que restringe a capacidade de amar o outro tal como ele se apresenta na sua individualidade.
No amor romântico, parte-se da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.
O modo de amar característico do amor idealizado carrega em seu bojo o ser altruísta, desinteressado de si, aquele que se ocupa de fazer o bem ao ser amado. Parece destituído de qualquer satisfação individual – é um permanente doar-se ao ser amado.
A paixão
A paixão é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida.
O romance surge em relação ao amor como um estado particular de amor, no qual existem poderosas correntes eróticas. O romance é o modo mais próximo do estado do apaixonamento, de cair de paixão, diferentemente do estar amando.
O tipo de significado associado ao apaixonar-se é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida e que eventos importantes podem acontecer nesse estado de apaixonamento. No entanto, existe um aspecto inerente ao romance que é a instabilidade. A tragédia é sempre o contraponto desse mesmo estado, caindo-se num estado de “blues” nostálgico, desconforto ligado à paixão, seguido de expressões de sentimento de culpa, pena e tristeza. Essas palavras estão sempre relacionadas às narrativas do romance.
No entanto, o que as pessoas no nosso tempo sabem e falam sobre o romance e o que perpassa no aspecto maior da cultura de massa é que o apaixonar-se vem e vai embora, vai perdendo seu colorido e tem a tendência de ser algo passageiro, de curta duração.
Uma paixão autêntica é difícil de encontrar e muito mais difícil de manter. Facilmente degenera para outra coisa muito menos cativante, menos exuberante, como, por exemplo, respeito sóbrio (distante), diversão puramente sexual, companhia previsível (por obrigação), ódio, culpa ou vitimização.
E o casamento nesse modelo idealizado?
Na idealização do casamento promete-se o amor eterno. Podemos prometer atos, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Portanto, a promessa de sempre amar alguém significa: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos. De modo que, na cabeça dos nossos semelhantes, permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo (NIETZSCHE, 2000, pág. 59).
A questão que ganha contorno nesse fragmento é o caráter incessante da transformação a que estamos todos submetidos. Mudam-se os nossos sentimentos e mudamos todos nós ao longo da vida. Assim, a permanência com a qual se compromete o futuro do casal é exclusivamente referida ao desempenho dos papéis sociais.
Contrariando as aparências, a concepção de Nietzsche não exclui a possibilidade de se contrair o matrimônio, desde que se considere a desconstrução da idealização do amor e explicite as diferenças entre os cônjuges.
O amor idealizado na contemporaneidade tem se caracterizado por um contínuo aumento das demandas projetadas sobre o cônjuge. Nietzsche olha para o casamento como um empreendimento possível, desde que não se solicite “tudo” dele ao mesmo tempo.
Quando a relação amorosa é exclusiva, isto é, totalizante na vida amorosa e sexual dos parceiros, é que se passa a buscar uma companheira ou um companheiro ideal. No amante idealizado se encontra tudo o que um homem busca numa mulher e vice-versa.
A paixão dura ao longo do tempo?
O esforço para entender os aspectos relacionados à experiência e à sustentação do romance nos remete a profundas questões dialéticas, envolvendo fantasia e atualidade, constância e mudança, corpo e emoção, amor e ódio, controle e descontrole, vitimização e culpa, segurança e risco.
Um aspecto intrigante nos trabalhos e observação clínica de Freud é que a condição que mais poderia interferir na completude da potência erótica na experiência de desejo era a questão do amor em si. Onde existe amor não pode existir desejo e vice-versa.
Era de se esperar que a liberdade sexual dos homens e mulheres hoje, depois da revolução sexual dos anos 1960, pudesse nos tornar capazes de amar e desejar junto ou separadamente, sem conflitos internos.
Mas, julgando pela quantidade de artigos nas revistas populares que tentam de alguma forma colocar tempero de volta nas relações que perderam seu romantismo, vemos que aquilo que perturbava os nossos antepassados no começo do século 20 continua muito presente nos dias de hoje.
Percebemos, então, que as pessoas do tempo de Freud, assim como no nosso tempo, têm dificuldades de integrar amor e excitação sexual, desejo e compromisso.
Apesar dessa mudança extraordinária que o trabalho de Freud nos ajudou a colocar em foco – isto é, de uma sexualidade que ficava à margem e à sombra para uma sexualidade que é jogada à nossa cara –, ainda hoje muitos homens e mulheres mantêm a divisão de que onde existe amor não pode haver desejo e onde há desejo, o amor não pode estar presente.
Outro aspecto da psicologia humana que somos forçados a destacar como algo essencial é o sentido de moradia. É difícil imaginar uma pessoa que não se oriente por algum sentido de moradia, pela sensação de saber de onde vem, onde está inserida e para onde deseja retornar. Não é acidental que as palavras família e familiar tenham as mesmas raízes.
Procuramos continuidade, permanência, como uma forma de nos sentir ancorados e seguros, e cada um de nós tem uma forma particular de estabelecer esse espaço que chamamos de moradia.
O recém-nascido e sua mãe, estando em constante sintonia, produzem um lugar onde a mãe oferece ao bebê um ambiente de suporte particular e observa suas necessidades afetivas e sensoriais. A partir dessas primeiras experiências de segurança e suporte afetivo do ambiente, um profundo sentimento de conexão e pertencimento começa a ser evocado, originado na vivência de se sentir em casa, na presença de alguém que vem de onde viemos ou com quem construímos esse sentimento de segurança e de local. É um sentimento que reflete um tipo de conexão, um ressoar entre o que está dentro e o que está fora de nós, ligando o passado e o presente, o que somos, o que fomos e o que desejamos ser.
No entanto, existe também um aspecto obscuro e arquetípico para esse senso de referência e de segurança, que é um desejo de transcender, de se aventurar, de escapar desse lugar.
Parece, portanto, que existe um contraste fundamental entre o ordinário e o transcendente, entre segurança e aventura, entre o familiar e o novo, que perpassa toda a experiência humana.
A Tradição perpetua a preservação e a Traição é da ordem da transcendência
Cada um desses pontos díspares aponta para dois aspectos fundamentais que marcam o desejo conflitivo do homem: por um lado, o desejo de segurança e pertencimento de algo que é completamente conhecido e previsível, uma âncora com que você pode contar e que moldura a vida e dá continente, como Erich Fromm coloca, por “devoção e orientação”; por outro lado, o desejo de romper com o que é estabelecido, com o familiar, para dar passos para além das fronteiras na busca de encontrar algo imprevisível, inspirador, não conhecido. O romance emerge da convergência dessas duas correntes.
Podemos pensar também como as duas palavras “Tradição” e “Traição” aparecem interligadas pela semelhança da escrita e fonética, bem como no seu significado mais profundo. A tradição perpetua a preservação e a traição é da ordem da transcendência. Na Bíblia, Abraão trai seu pai e sua cultura para estabelecer-se numa “terra que é sua”; Isaac transgride em sua relação com Ismael; Jacó transgride em relação a Esaú; Raquel, em relação à Lia, e José transgride em relação à Judá.
Portanto, transgredir é transcender. O traidor é, por sua vez, um transgressor. Ele propõe outra lei e outra realidade.
“Não haverá tradição sem traição, nem traição sem tradição.” (BONDER, 1998).
Quando compreendemos a traição como uma necessidade da alma para sua evolução e individuação, o caminho da imortalidade do corpo é traçado.
Do Iluminismo ao sujeito pós-moderno
Continuando a explorar os caminhos da história, chega-se ao sujeito do Iluminismo com Descartes, “Penso, logo existo”. Este é um sujeito que se reconhece como alguém que pensa, duvida, sente, nega, afirma, imagina. Esse sujeito, mesmo ao longo do tempo, possui um núcleo que permanece o mesmo.
Na concepção sociológica, a identidade do indivíduo preenche o espaço entre o sujeito, seu núcleo e o mundo. Portanto, o núcleo interior está em constante relação com o meio no qual ele vive e se forma nessa relação. Não é o sujeito autônomo e autossuficiente do Iluminismo. Ele influencia e é influenciado pelo meio. A identidade é formada num diálogo contínuo com o mundo.
O sujeito pós-moderno é um sujeito fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. O sujeito não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade, ao contrário, torna-se uma celebração móvel, formada e transformada continuamente.
Princípio identitário e sexualidade
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Essa identidade, quando narrada, torna-se coerente a posteriori, pois passou por períodos de conflitos e incoerências.
A identidade é arduamente construída ao longo da vida do indivíduo e não mais por pertencer àquela família, àquela comunidade. O aspecto positivo é a possibilidade de escolha. A identidade não tem mais o aspecto determinístico de antes. Assim, no mundo moderno, podemos contar com um número maior de casamentos, identidades profissionais, mudanças de religião, mobilidade de lugar.
O princípio identitário é consistente com uma convicção mais ampla ou geral do nosso tempo, onde a sexualidade é central para o nosso ser, para a nossa vida, e a felicidade depende em grande parte de sua expressão e da gratificação sexual.
A crença de que o nosso ser se reflete e se expressa na nossa sexualidade nos faz buscar o amor romântico dentro ou fora das nossas relações estáveis, sendo essa ocupação corrente nas nossas vidas.
A gratificação sexual é um reflexo e expressão da nossa sexualidade e da nossa identidade. O sentimento de identidade depende de como expressamos nossa sexualidade e somos gratificados por ela, o que faz com que persigamos esse sentimento de romance dentro e fora de nossas relações – isso é um trabalho que resume toda uma vida.
Passamos a ser, como indivíduos, a expressão dessa sexualidade onde tudo está relacionado. Por conta dessa convicção vem a importância do romance na vida das pessoas. O romance tem de estar dentro das relações ou então será procurado fora do relacionamento que foi construído no longo prazo. Assim, a busca do romance torna-se algo que todos empreendem, como se ter romance, gratificação sexual, satisfação fosse o mote da vida dos indivíduos.
Previsibilidade – Castelo de areia
O sentimento de segurança e familiaridade não é uma condição dada, é antes uma condição construída. Esse sentimento profundo e mútuo está relacionado ao ser familiar; não é uma coisa previsível, mas é uma fantasia elaborada.
Se um casal que tem uma relação estável de repente vê isso se quebrar, acontecerá de um dos dois dizer que não esperava por aquilo, que não conhecia seu parceiro. Assume-se que a experiência que a pessoa está tendo é igual à do outro. A condição de que estão os dois na mesma sintonia é o que dá a sensação de segurança, previsibilidade e familiaridade. Tudo isso é um castelo de areia: a mulher não era tão previsível assim e o marido não era tão derrotado assim. O outro, na verdade, não está totalmente disponível e tem pensamentos e sentimentos que não são revelados.
Uma corrente da psicologia acredita que o indivíduo tem um núcleo central, contínuo e previsível, que procura a validação frente ao outro. Outras novas correntes teóricas descrevem o ser muito mais fluido, inacessível, descentrado e descontínuo. Para essa nova perspectiva não é o perigo e a aventura que têm de ser explicados, mas sim a previsibilidade e a segurança. O desejo de atingir e chegar a essa coisa inacessível e o sentimento de posse do que é conhecido são uma ilusão que funciona para conter o risco e a incerteza.
É preciso ter certo cuidado de estar sempre se oferecendo para satisfazer o desejo do outro. À medida que se é convidado a participar em tornar o outro previsível, mata-se o desejo e a paixão romântica; é uma forma que prevalece nas relações de longo prazo.
Como se trabalha para matar o desejo na relação?
Quando fazemos de tudo para tornar a relação previsível, quando queremos saber mais e mais do outro. Temos aqui um paradoxo: à medida que isso traz segurança, traz também a coerção e a ilusão. O hábito mata o desejo.
Todos nós provavelmente fazemos habituações com as pessoas que amamos, mas imagine como isso causa sentimentos de injustiça e fúria, pois quando fazemos da pessoa um hábito, reduzimos a complexidade do indivíduo e sua humanidade. Hábito é algo útil para afazeres mecânicos, como lavar a louça, escovar os dentes. Mas o hábito é uma rua sem saída que mata a relação.
Essa forma de levar o hábito para a relação do amor romântico não faz parte da natureza do amor. É uma forma de estabelecer uma proteção em defesa da vulnerabilidade, que é inerente ao amor romântico.
Previsibilidade e segurança são uma necessidade e uma forma de conhecer o outro e de nos conhecermos. Esse tipo de sentimento é atrativo para crianças, mas para os adultos é difícil de acontecer. Dessa maneira, temos de nos esforçar para estabelecer o sentido ilusório de permanência e previsão. Quando os pacientes nos procuram porque o casamento está morrendo tentam mostrar como a previsibilidade é importante para eles e trabalham insistentemente para manter a relação dentro desse parâmetro.
Uma ligação segura com o outro não é uma coisa terrível, não é um modelo terrível de se estar numa relação romântica adulta – exceto se for baseada na fantasia e ilusão produzida pela busca de segurança. O ruim não é a estabilidade afetiva, mas a ilusão de completude advinda da segurança produzida por essa fantasia, assim como a crença de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.
O amor, por natureza, não é algo de que se possa ter certeza ou com o qual se possa contar, mas queremos que tenha uma segurança e uma certeza que não fazem parte dele.
Lacan ilustra bem a degradação do romance a serviço dessa segurança ilusória quando diz que o amor é dar algo que você não tem para alguém que você não conhece.
Estamos perdendo nossos valores mais tradicionais?
Isso é uma fantasia. Não estamos perdendo valores, porque ninguém vive sem eles. O que há é uma reordenação dos valores.
A palavra de ordem desse século é parceria, estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo.
“Eu tenho prazer, alegria, respeito em estar junto, e não estou junto porque sou só uma parte, onde você tem a responsabilidade pelo meu bem-estar.”
As pessoas estão aprendendo, com a nova tecnologia, a permanecer mais tempo em seus entretenimentos e tarefas individuais, portanto, estão perdendo o medo de ficar sozinhas, o que cria a possibilidade de conviver melhor consigo mesmas.
Quando amamos ou quando nos sentimos amados, reconhecemos a dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.
Afinal, onde anda hoje em dia essa pulsão chamada amor?
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar.
O homem vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que construiu. Assim, estamos entrando na era da individualidade.
O desejo nos torna capaz de amar, é ele que pretendemos realizar por meio da escolha amorosa. Como disse Freud, o desejo consiste no hiato entre o objeto imaginado que vai me trazer a satisfação e a satisfação efetivamente obtida. Trata-se, portanto, de uma satisfação imaginária e, assim, impossível de ser alcançada. Nesse sentido, o prazer sexual impossibilita a realização de um desejo de fusão com o outro. Assim, o amor autêntico é a renúncia de qualquer posse do outro, de qualquer “com–fusão”.
No amor eu descubro que o outro é destinado a outras existências. O amor é liberdade e libertação.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros e não à união de duas metades. O mito da cara–metade, “você foi feito para mim”, do destino e da fatalidade, ”nosso amor estava escrito nas estrelas”, “da eternidade”, é hoje um mito remanescente.
Os atos de amor precisam de tempo para fluir e construir uma história a dois. O amor é ato de desvelamento da subjetividade do outro como liberdade e alteridade.
Uma boa relação afetiva só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável, na medida em que temos dificuldade de abrir mão das ilusões que amamos.
A ditadura do gozo
Diversas coisas davam sentido ao mundo do indivíduo: religião, trabalho, convicção intelectual, artes, política. O avanço gigantesco da mídia, sobretudo com vistas a divertir, a não comprometer, a vender, aos poucos invadiu o imaginário popular, impondo uma percepção de mundo sem compromisso com o futuro.
A moral do espetáculo tem duas facetas: a vida como entretenimento e a felicidade das sensações que se concentram no próprio corpo. Não existe mais o contentamento em ser feliz sentimental ou civicamente.
A cultura capitalista moderna descobriu que o sexo bem feito pode nos tornar mais felizes, saudáveis e rentáveis. A sexualidade passou, assim, a ter uma nova importância na vida das pessoas. Hoje, o gozo tornou-se uma obrigação. Paradoxalmente passamos a justificar a busca da felicidade na realização do ter prazer a qualquer custo, e a considerar infeliz todo aquele que não é feliz.
Para ser feliz é necessário o gozo intenso, o gozo pelo êxtase. Sabemos que o êxtase corporal é breve, provisório. Sua manutenção está ligada à submissão a padrões de beleza, preocupação em relação à competência sexual, ao tamanho do pênis e ao orgasmo feminino.
A brevidade do gozo das sensações está em sintonia com a provisoriedade da realidade apresentada pela mídia.
No romantismo do século 19, era possível passar dois anos sem ver a mulher amada e gozando por isso: inventando histórias, escrevendo música ou poesia.
Não seria o próprio sexo transformado em objeto idealizado na contemporaneidade, ocupando assim o lugar do amor, idealização presente no início do século?
E o que substituirá o amor?
As forças que regem os aspectos do relacionamento humano ainda são um mistério de difícil resolução. O frio na espinha, a excitação por um sexo ilícito e perigoso que atrai muitos homens e mulheres, é um mistério ainda sem explicação.
As contradições inerentes às nossas experiências amorosas nos levaram a refletir neste texto sobre as dimensões irracionais do amor, aceitando mais complexidade e mais ambiguidades nas relações. Esses aspectos nos conduzem a uma maior flexibilidade para abordar diferentes valores e significados na singularidade de cada um.
Não seria o caso de buscar uma união sem fusão, sem separação e sem subordinação. Nem a comunhão de corações e fusão de destinos, nem a trivialidade de um contrato familiar, econômico ou erótico.
A associação entre amor e paixão, fidelidade e transgressão, parece ter tornado mais penoso o fracasso amoroso, porque as expectativas em torno do casamento também se tornaram maiores.
O casamento da modernidade se baseia na liberdade de escolha e não mais nos valores tradicionais das instituições religiosas, sociais e familiar que o condicionavam e lhe ofereciam suporte. O casal liberto das antigas tradições fica agora dependente de sentimentos inconstantes. O casal fica entregue a sua própria solidão e se vê obrigado a dar sentido a uma relação fundada na fragilidade de um sentimento passageiro.
O amor–paixão longe das interdições religiosas ficou entregue ao pessimismo, ao sofrimento, ao fracasso, à perda da chama destinada a se apagar. O casamento tradicional, em oposição ao casamento moderno, desobrigava o casal a justificar a união por meio da paixão, valorizando a obrigação de respeitar e solidarizar o outro por toda a vida – forma de amor mais próxima de uma amizade terna do que da paixão. Esse sentido religiosamente imposto ao casamento se mostra mais realizável do que a “com–fusão” de destinos proposta pelo amor–paixão.
Com o declínio dos grandes ideais religiosos e políticos, o amor aparece como uma das poucas coisas que fundamentam o sentido real da vida, um fim em si mesmo. Morremos e matamos por amor, mais do que pela pátria, pela revolução ou por Deus.
O amor pensado pela perspectiva da repressão reclama, em contrapartida, pela elaboração de uma ética (ou erótica) da libertação. A ideia de dependência, a separação, as inquietações, explicam as atitudes dos que se afastam da paixão por medo de fracasso e de sofrimento.
No entanto, se a lógica do amor consiste na eleição exclusiva do outro como um ser absoluto – “ele e mais ninguém” –, então essa libertação que escraviza é inevitável.
Uma expressão da nossa liberdade sexual?
Do nosso interesse na diversidade?
Ou
Uma forma mais fácil de não nos tornarmos mais íntimos com os nossos parceiros?
Vivemos implicados nos paradoxos da nossa natureza humana e nos desafios para sustentar o romance e as relações de parceria.
Hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade.
Historicamente percebemos que o que restou do amor romântico foi a robustez do erótico a qualquer preço.
O sentimento mais frágil que liga o casal, o compromisso, a cumplicidade, a intimidade, o cuidado, o interesse genuíno pelo outro, a segurança, o conforto, a convivência, a familiaridade estão condenados à brevidade, à crise.
A fragilidade dos vínculos – Apertar e afrouxar laços
Na modernidade, homens e mulheres vivem a fragilidade dos vínculos humanos. À medida que anseiam pela segurança do convívio, num movimento desesperado por relacionar-se, desconfiam da condição de estar ligados permanentemente. Vivem, assim, atormentados por desejos conflitantes de apertar os laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Esses profundos sentimentos de ambivalência revelam o temor dos encargos e tensões que a condição de estar ligado pode trazer. A perda da liberdade resulta num preço excessivo e inaceitável.
Paralelamente, os relacionamentos se encontram no topo da agenda existencial do indivíduo.
No desejo de relacionar-se, o indivíduo procura paradoxalmente manter os vínculos frouxos, na tentativa de não limitar a liberdade de que necessita. A incapacidade de escolha entre esperanças e temores paralisa o ser humano. A inabilidade de agir é resultado da dificuldade de suportar os momentos mais amargos que estão simultaneamente relacionados ao desfrutar das delícias de um relacionamento.
Comer do bolo e conservá-lo
No mundo moderno, queremos comer do bolo e ao mesmo tempo conservá-lo. Desfrutar dos bons momentos sem o ônus dos momentos amargos. Satisfazer sem oprimir, permitir sem desautorizar. O que aprendemos é: deseja-se se relacionar, mantenha distância; quer-se usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas abertas. O compromisso de longo prazo é uma grande armadilha que deve ser evitada no esforço por relacionar-se.
A vida nos foi dada para vivê-la e todos queremos ter uma vida rica de significados, ou seja, gostaríamos de sustentar a paixão e o amor. Muitos de nós temos o desejo de nos envolver com as questões do amor e de sustentar a paixão com as pessoas.
O amor romântico
O movimento romântico revolucionou o pensamento, assim como as artes em direção à paixão, à tragédia e ao significado pessoal da vida. Segundo Isaias Berlim, foi ”o mais profundo e duradouro movimento de mudança na vida do Ocidente”.
Iremos explorar os caminhos percorridos, a maneira como essa mudança histórica transformou a experiência da vida individual das pessoas no nosso tempo.
Cabe aqui falar das idealizações como uma manifestação metafísica do mundo, ou seja, uma construção imaginária. A idealização corresponde ao empobrecimento da vida, na medida em que restringe a capacidade de amar o outro tal como ele se apresenta na sua individualidade.
No amor romântico, parte-se da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.
O modo de amar característico do amor idealizado carrega em seu bojo o ser altruísta, desinteressado de si, aquele que se ocupa de fazer o bem ao ser amado. Parece destituído de qualquer satisfação individual – é um permanente doar-se ao ser amado.
A paixão
A paixão é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida.
O romance surge em relação ao amor como um estado particular de amor, no qual existem poderosas correntes eróticas. O romance é o modo mais próximo do estado do apaixonamento, de cair de paixão, diferentemente do estar amando.
O tipo de significado associado ao apaixonar-se é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida e que eventos importantes podem acontecer nesse estado de apaixonamento. No entanto, existe um aspecto inerente ao romance que é a instabilidade. A tragédia é sempre o contraponto desse mesmo estado, caindo-se num estado de “blues” nostálgico, desconforto ligado à paixão, seguido de expressões de sentimento de culpa, pena e tristeza. Essas palavras estão sempre relacionadas às narrativas do romance.
No entanto, o que as pessoas no nosso tempo sabem e falam sobre o romance e o que perpassa no aspecto maior da cultura de massa é que o apaixonar-se vem e vai embora, vai perdendo seu colorido e tem a tendência de ser algo passageiro, de curta duração.
Uma paixão autêntica é difícil de encontrar e muito mais difícil de manter. Facilmente degenera para outra coisa muito menos cativante, menos exuberante, como, por exemplo, respeito sóbrio (distante), diversão puramente sexual, companhia previsível (por obrigação), ódio, culpa ou vitimização.
E o casamento nesse modelo idealizado?
Na idealização do casamento promete-se o amor eterno. Podemos prometer atos, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Portanto, a promessa de sempre amar alguém significa: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos. De modo que, na cabeça dos nossos semelhantes, permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo (NIETZSCHE, 2000, pág. 59).
A questão que ganha contorno nesse fragmento é o caráter incessante da transformação a que estamos todos submetidos. Mudam-se os nossos sentimentos e mudamos todos nós ao longo da vida. Assim, a permanência com a qual se compromete o futuro do casal é exclusivamente referida ao desempenho dos papéis sociais.
Contrariando as aparências, a concepção de Nietzsche não exclui a possibilidade de se contrair o matrimônio, desde que se considere a desconstrução da idealização do amor e explicite as diferenças entre os cônjuges.
O amor idealizado na contemporaneidade tem se caracterizado por um contínuo aumento das demandas projetadas sobre o cônjuge. Nietzsche olha para o casamento como um empreendimento possível, desde que não se solicite “tudo” dele ao mesmo tempo.
Quando a relação amorosa é exclusiva, isto é, totalizante na vida amorosa e sexual dos parceiros, é que se passa a buscar uma companheira ou um companheiro ideal. No amante idealizado se encontra tudo o que um homem busca numa mulher e vice-versa.
A paixão dura ao longo do tempo?
O esforço para entender os aspectos relacionados à experiência e à sustentação do romance nos remete a profundas questões dialéticas, envolvendo fantasia e atualidade, constância e mudança, corpo e emoção, amor e ódio, controle e descontrole, vitimização e culpa, segurança e risco.
Um aspecto intrigante nos trabalhos e observação clínica de Freud é que a condição que mais poderia interferir na completude da potência erótica na experiência de desejo era a questão do amor em si. Onde existe amor não pode existir desejo e vice-versa.
Era de se esperar que a liberdade sexual dos homens e mulheres hoje, depois da revolução sexual dos anos 1960, pudesse nos tornar capazes de amar e desejar junto ou separadamente, sem conflitos internos.
Mas, julgando pela quantidade de artigos nas revistas populares que tentam de alguma forma colocar tempero de volta nas relações que perderam seu romantismo, vemos que aquilo que perturbava os nossos antepassados no começo do século 20 continua muito presente nos dias de hoje.
Percebemos, então, que as pessoas do tempo de Freud, assim como no nosso tempo, têm dificuldades de integrar amor e excitação sexual, desejo e compromisso.
Apesar dessa mudança extraordinária que o trabalho de Freud nos ajudou a colocar em foco – isto é, de uma sexualidade que ficava à margem e à sombra para uma sexualidade que é jogada à nossa cara –, ainda hoje muitos homens e mulheres mantêm a divisão de que onde existe amor não pode haver desejo e onde há desejo, o amor não pode estar presente.
Outro aspecto da psicologia humana que somos forçados a destacar como algo essencial é o sentido de moradia. É difícil imaginar uma pessoa que não se oriente por algum sentido de moradia, pela sensação de saber de onde vem, onde está inserida e para onde deseja retornar. Não é acidental que as palavras família e familiar tenham as mesmas raízes.
Procuramos continuidade, permanência, como uma forma de nos sentir ancorados e seguros, e cada um de nós tem uma forma particular de estabelecer esse espaço que chamamos de moradia.
O recém-nascido e sua mãe, estando em constante sintonia, produzem um lugar onde a mãe oferece ao bebê um ambiente de suporte particular e observa suas necessidades afetivas e sensoriais. A partir dessas primeiras experiências de segurança e suporte afetivo do ambiente, um profundo sentimento de conexão e pertencimento começa a ser evocado, originado na vivência de se sentir em casa, na presença de alguém que vem de onde viemos ou com quem construímos esse sentimento de segurança e de local. É um sentimento que reflete um tipo de conexão, um ressoar entre o que está dentro e o que está fora de nós, ligando o passado e o presente, o que somos, o que fomos e o que desejamos ser.
No entanto, existe também um aspecto obscuro e arquetípico para esse senso de referência e de segurança, que é um desejo de transcender, de se aventurar, de escapar desse lugar.
Parece, portanto, que existe um contraste fundamental entre o ordinário e o transcendente, entre segurança e aventura, entre o familiar e o novo, que perpassa toda a experiência humana.
A Tradição perpetua a preservação e a Traição é da ordem da transcendência
Cada um desses pontos díspares aponta para dois aspectos fundamentais que marcam o desejo conflitivo do homem: por um lado, o desejo de segurança e pertencimento de algo que é completamente conhecido e previsível, uma âncora com que você pode contar e que moldura a vida e dá continente, como Erich Fromm coloca, por “devoção e orientação”; por outro lado, o desejo de romper com o que é estabelecido, com o familiar, para dar passos para além das fronteiras na busca de encontrar algo imprevisível, inspirador, não conhecido. O romance emerge da convergência dessas duas correntes.
Podemos pensar também como as duas palavras “Tradição” e “Traição” aparecem interligadas pela semelhança da escrita e fonética, bem como no seu significado mais profundo. A tradição perpetua a preservação e a traição é da ordem da transcendência. Na Bíblia, Abraão trai seu pai e sua cultura para estabelecer-se numa “terra que é sua”; Isaac transgride em sua relação com Ismael; Jacó transgride em relação a Esaú; Raquel, em relação à Lia, e José transgride em relação à Judá.
Portanto, transgredir é transcender. O traidor é, por sua vez, um transgressor. Ele propõe outra lei e outra realidade.
“Não haverá tradição sem traição, nem traição sem tradição.” (BONDER, 1998).
Quando compreendemos a traição como uma necessidade da alma para sua evolução e individuação, o caminho da imortalidade do corpo é traçado.
Do Iluminismo ao sujeito pós-moderno
Continuando a explorar os caminhos da história, chega-se ao sujeito do Iluminismo com Descartes, “Penso, logo existo”. Este é um sujeito que se reconhece como alguém que pensa, duvida, sente, nega, afirma, imagina. Esse sujeito, mesmo ao longo do tempo, possui um núcleo que permanece o mesmo.
Na concepção sociológica, a identidade do indivíduo preenche o espaço entre o sujeito, seu núcleo e o mundo. Portanto, o núcleo interior está em constante relação com o meio no qual ele vive e se forma nessa relação. Não é o sujeito autônomo e autossuficiente do Iluminismo. Ele influencia e é influenciado pelo meio. A identidade é formada num diálogo contínuo com o mundo.
O sujeito pós-moderno é um sujeito fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. O sujeito não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade, ao contrário, torna-se uma celebração móvel, formada e transformada continuamente.
Princípio identitário e sexualidade
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Essa identidade, quando narrada, torna-se coerente a posteriori, pois passou por períodos de conflitos e incoerências.
A identidade é arduamente construída ao longo da vida do indivíduo e não mais por pertencer àquela família, àquela comunidade. O aspecto positivo é a possibilidade de escolha. A identidade não tem mais o aspecto determinístico de antes. Assim, no mundo moderno, podemos contar com um número maior de casamentos, identidades profissionais, mudanças de religião, mobilidade de lugar.
O princípio identitário é consistente com uma convicção mais ampla ou geral do nosso tempo, onde a sexualidade é central para o nosso ser, para a nossa vida, e a felicidade depende em grande parte de sua expressão e da gratificação sexual.
A crença de que o nosso ser se reflete e se expressa na nossa sexualidade nos faz buscar o amor romântico dentro ou fora das nossas relações estáveis, sendo essa ocupação corrente nas nossas vidas.
A gratificação sexual é um reflexo e expressão da nossa sexualidade e da nossa identidade. O sentimento de identidade depende de como expressamos nossa sexualidade e somos gratificados por ela, o que faz com que persigamos esse sentimento de romance dentro e fora de nossas relações – isso é um trabalho que resume toda uma vida.
Passamos a ser, como indivíduos, a expressão dessa sexualidade onde tudo está relacionado. Por conta dessa convicção vem a importância do romance na vida das pessoas. O romance tem de estar dentro das relações ou então será procurado fora do relacionamento que foi construído no longo prazo. Assim, a busca do romance torna-se algo que todos empreendem, como se ter romance, gratificação sexual, satisfação fosse o mote da vida dos indivíduos.
Previsibilidade – Castelo de areia
O sentimento de segurança e familiaridade não é uma condição dada, é antes uma condição construída. Esse sentimento profundo e mútuo está relacionado ao ser familiar; não é uma coisa previsível, mas é uma fantasia elaborada.
Se um casal que tem uma relação estável de repente vê isso se quebrar, acontecerá de um dos dois dizer que não esperava por aquilo, que não conhecia seu parceiro. Assume-se que a experiência que a pessoa está tendo é igual à do outro. A condição de que estão os dois na mesma sintonia é o que dá a sensação de segurança, previsibilidade e familiaridade. Tudo isso é um castelo de areia: a mulher não era tão previsível assim e o marido não era tão derrotado assim. O outro, na verdade, não está totalmente disponível e tem pensamentos e sentimentos que não são revelados.
Uma corrente da psicologia acredita que o indivíduo tem um núcleo central, contínuo e previsível, que procura a validação frente ao outro. Outras novas correntes teóricas descrevem o ser muito mais fluido, inacessível, descentrado e descontínuo. Para essa nova perspectiva não é o perigo e a aventura que têm de ser explicados, mas sim a previsibilidade e a segurança. O desejo de atingir e chegar a essa coisa inacessível e o sentimento de posse do que é conhecido são uma ilusão que funciona para conter o risco e a incerteza.
É preciso ter certo cuidado de estar sempre se oferecendo para satisfazer o desejo do outro. À medida que se é convidado a participar em tornar o outro previsível, mata-se o desejo e a paixão romântica; é uma forma que prevalece nas relações de longo prazo.
Como se trabalha para matar o desejo na relação?
Quando fazemos de tudo para tornar a relação previsível, quando queremos saber mais e mais do outro. Temos aqui um paradoxo: à medida que isso traz segurança, traz também a coerção e a ilusão. O hábito mata o desejo.
Todos nós provavelmente fazemos habituações com as pessoas que amamos, mas imagine como isso causa sentimentos de injustiça e fúria, pois quando fazemos da pessoa um hábito, reduzimos a complexidade do indivíduo e sua humanidade. Hábito é algo útil para afazeres mecânicos, como lavar a louça, escovar os dentes. Mas o hábito é uma rua sem saída que mata a relação.
Essa forma de levar o hábito para a relação do amor romântico não faz parte da natureza do amor. É uma forma de estabelecer uma proteção em defesa da vulnerabilidade, que é inerente ao amor romântico.
Previsibilidade e segurança são uma necessidade e uma forma de conhecer o outro e de nos conhecermos. Esse tipo de sentimento é atrativo para crianças, mas para os adultos é difícil de acontecer. Dessa maneira, temos de nos esforçar para estabelecer o sentido ilusório de permanência e previsão. Quando os pacientes nos procuram porque o casamento está morrendo tentam mostrar como a previsibilidade é importante para eles e trabalham insistentemente para manter a relação dentro desse parâmetro.
Uma ligação segura com o outro não é uma coisa terrível, não é um modelo terrível de se estar numa relação romântica adulta – exceto se for baseada na fantasia e ilusão produzida pela busca de segurança. O ruim não é a estabilidade afetiva, mas a ilusão de completude advinda da segurança produzida por essa fantasia, assim como a crença de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.
O amor, por natureza, não é algo de que se possa ter certeza ou com o qual se possa contar, mas queremos que tenha uma segurança e uma certeza que não fazem parte dele.
Lacan ilustra bem a degradação do romance a serviço dessa segurança ilusória quando diz que o amor é dar algo que você não tem para alguém que você não conhece.
Estamos perdendo nossos valores mais tradicionais?
Isso é uma fantasia. Não estamos perdendo valores, porque ninguém vive sem eles. O que há é uma reordenação dos valores.
A palavra de ordem desse século é parceria, estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo.
“Eu tenho prazer, alegria, respeito em estar junto, e não estou junto porque sou só uma parte, onde você tem a responsabilidade pelo meu bem-estar.”
As pessoas estão aprendendo, com a nova tecnologia, a permanecer mais tempo em seus entretenimentos e tarefas individuais, portanto, estão perdendo o medo de ficar sozinhas, o que cria a possibilidade de conviver melhor consigo mesmas.
Quando amamos ou quando nos sentimos amados, reconhecemos a dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.
Afinal, onde anda hoje em dia essa pulsão chamada amor?
O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar.
O homem vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que construiu. Assim, estamos entrando na era da individualidade.
O desejo nos torna capaz de amar, é ele que pretendemos realizar por meio da escolha amorosa. Como disse Freud, o desejo consiste no hiato entre o objeto imaginado que vai me trazer a satisfação e a satisfação efetivamente obtida. Trata-se, portanto, de uma satisfação imaginária e, assim, impossível de ser alcançada. Nesse sentido, o prazer sexual impossibilita a realização de um desejo de fusão com o outro. Assim, o amor autêntico é a renúncia de qualquer posse do outro, de qualquer “com–fusão”.
No amor eu descubro que o outro é destinado a outras existências. O amor é liberdade e libertação.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros e não à união de duas metades. O mito da cara–metade, “você foi feito para mim”, do destino e da fatalidade, ”nosso amor estava escrito nas estrelas”, “da eternidade”, é hoje um mito remanescente.
Os atos de amor precisam de tempo para fluir e construir uma história a dois. O amor é ato de desvelamento da subjetividade do outro como liberdade e alteridade.
Uma boa relação afetiva só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável, na medida em que temos dificuldade de abrir mão das ilusões que amamos.
A ditadura do gozo
Diversas coisas davam sentido ao mundo do indivíduo: religião, trabalho, convicção intelectual, artes, política. O avanço gigantesco da mídia, sobretudo com vistas a divertir, a não comprometer, a vender, aos poucos invadiu o imaginário popular, impondo uma percepção de mundo sem compromisso com o futuro.
A moral do espetáculo tem duas facetas: a vida como entretenimento e a felicidade das sensações que se concentram no próprio corpo. Não existe mais o contentamento em ser feliz sentimental ou civicamente.
A cultura capitalista moderna descobriu que o sexo bem feito pode nos tornar mais felizes, saudáveis e rentáveis. A sexualidade passou, assim, a ter uma nova importância na vida das pessoas. Hoje, o gozo tornou-se uma obrigação. Paradoxalmente passamos a justificar a busca da felicidade na realização do ter prazer a qualquer custo, e a considerar infeliz todo aquele que não é feliz.
Para ser feliz é necessário o gozo intenso, o gozo pelo êxtase. Sabemos que o êxtase corporal é breve, provisório. Sua manutenção está ligada à submissão a padrões de beleza, preocupação em relação à competência sexual, ao tamanho do pênis e ao orgasmo feminino.
A brevidade do gozo das sensações está em sintonia com a provisoriedade da realidade apresentada pela mídia.
No romantismo do século 19, era possível passar dois anos sem ver a mulher amada e gozando por isso: inventando histórias, escrevendo música ou poesia.
Não seria o próprio sexo transformado em objeto idealizado na contemporaneidade, ocupando assim o lugar do amor, idealização presente no início do século?
E o que substituirá o amor?
As forças que regem os aspectos do relacionamento humano ainda são um mistério de difícil resolução. O frio na espinha, a excitação por um sexo ilícito e perigoso que atrai muitos homens e mulheres, é um mistério ainda sem explicação.
As contradições inerentes às nossas experiências amorosas nos levaram a refletir neste texto sobre as dimensões irracionais do amor, aceitando mais complexidade e mais ambiguidades nas relações. Esses aspectos nos conduzem a uma maior flexibilidade para abordar diferentes valores e significados na singularidade de cada um.
Não seria o caso de buscar uma união sem fusão, sem separação e sem subordinação. Nem a comunhão de corações e fusão de destinos, nem a trivialidade de um contrato familiar, econômico ou erótico.
A associação entre amor e paixão, fidelidade e transgressão, parece ter tornado mais penoso o fracasso amoroso, porque as expectativas em torno do casamento também se tornaram maiores.
O casamento da modernidade se baseia na liberdade de escolha e não mais nos valores tradicionais das instituições religiosas, sociais e familiar que o condicionavam e lhe ofereciam suporte. O casal liberto das antigas tradições fica agora dependente de sentimentos inconstantes. O casal fica entregue a sua própria solidão e se vê obrigado a dar sentido a uma relação fundada na fragilidade de um sentimento passageiro.
O amor–paixão longe das interdições religiosas ficou entregue ao pessimismo, ao sofrimento, ao fracasso, à perda da chama destinada a se apagar. O casamento tradicional, em oposição ao casamento moderno, desobrigava o casal a justificar a união por meio da paixão, valorizando a obrigação de respeitar e solidarizar o outro por toda a vida – forma de amor mais próxima de uma amizade terna do que da paixão. Esse sentido religiosamente imposto ao casamento se mostra mais realizável do que a “com–fusão” de destinos proposta pelo amor–paixão.
Com o declínio dos grandes ideais religiosos e políticos, o amor aparece como uma das poucas coisas que fundamentam o sentido real da vida, um fim em si mesmo. Morremos e matamos por amor, mais do que pela pátria, pela revolução ou por Deus.
O amor pensado pela perspectiva da repressão reclama, em contrapartida, pela elaboração de uma ética (ou erótica) da libertação. A ideia de dependência, a separação, as inquietações, explicam as atitudes dos que se afastam da paixão por medo de fracasso e de sofrimento.
No entanto, se a lógica do amor consiste na eleição exclusiva do outro como um ser absoluto – “ele e mais ninguém” –, então essa libertação que escraviza é inevitável.
Quem ama vive mais
A vida não privilegia os distraídos. Ela presenteia os que estão despertos, aqueles que estão de prontidão para enxergar, os que estão de ouvidos abertos para ouvir, os que têm pernas firmes para se manterem em pé e continuarem a andar, os que reconhecem no corpo um depositário de energia, de sentimentos e de realização.
A vida identifica os que têm os corações disponíveis, forte e gentil, e se entregam sem medo às aventuras que lhes reserva. A vida dá mais àqueles que vivem mais, e viver mais é estar em um lugar novo, diferente de todos os já vividos e diferente de tudo. Por isso que viver mais pode ser o caminho para a sabedoria, para a alegria, para o desapego, para novas experiências.
Quanto mais a vida nos dá de tempo a ser vivido, mais ela nos dá para transformarmos o que temos de mais rico, os mais diversos tipos de amor sentidos, os mais diversos tipos de relacionamentos.
Jade uma mulher incrível que conheci, trouxe-me esta história que me fez repensar o envelhecimento como um lugar de emoções que podem continuar a serem vividas e sentidas, um lugar onde as coisas podem continuar acontecendo sempre, dependendo da forma que se escolhe viver.
Ela era do tipo mignon, não mais de 1,60ms de altura, de traços delicados e pele fina, seu corpo trazia a graça dos movimentos livres e a energia traduzida em sua vitalidade. A idade não escondia, mas, já há tempos havia saído da casa dos cinquenta. Carregava ainda algo da menina, igualzinho ao retrato de sua infância. Um olhar presente, curioso, mas um tanto tímido, tornava-a ainda mais interessante. Embora olhasse com firmeza, não perdia o encanto que em qualquer canto desse olhar se reconhecia como o acolhimento, o afeto, o abraço que ele era capaz de dar. Estes olhos que tanto bons sentimentos expressavam, ainda por cima eram da cor da pedra preciosa, Jade, da onde seu nome fora escolhido.
O verde nos remete a natureza, as árvores, os campos, os mares, quase tudo nela vinha com o selo do natural. Sua genuinidade era sua “griffe”. Creio que, o que mais me chamou a atenção, quando a conheci, foi seu sorriso, que era tão receptivo e vivo como o seu olhar.
Ah! Como me encantei com o sorriso de Jade, parecia Monalisa, em cada um despertava um sentimento, um pensar, um começo... o começo de um encantamento. Por ela se encantavam os jovens, os homens, as mulheres e as crianças. O que Jade tinha de tão especial? Qual era o segredo de seu encantamento?
Sem dúvida eram muitas as qualidades de Jade, mas, a alegria, essa sim era a principal, que desabrochava naquele sorriso, o sorriso de Monalisa. A alegria, sua mais rica expressão do amor, do dar incondicionalmente.
Esta é uma das histórias de Jade alegre, divertida, romântica e surpreendente, que só pode acontecer com quem está com o coração aberto aos presentes que a vida tem a oferecer.
Jade sempre foi rodeada por muitas pessoas queridas, não se sentia sozinha mesmo não tendo se casado. Soube fazer amigos e conquistar a amizade das pessoas. Vivia às vezes, situações bem engraçadas, porque era despreendida e sabia aproveitar tudo que a vida lhe dava.
Era Dia dos Namorados e ela nem imaginava que o que estava por acontecer, a colocaria como a protagonista desta história, logo ela, que carregava em sua bagagem os louros de sua idade de ouro e em seus cabelos a mais pura prata.
Saiu para seu trabalho, seguindo a rotina de todos os dias e ao voltar do almoço, encontrou em sua mesa um lindo vaso de orquídeas brancas, que só poderiam ter sido escolhidas por alguém muito especial. Papéis de seda de tom lilás abraçavam delicadamente o vaso de barro, imprimindo uma qualidade de frescor matinal aquelas orquídeas que ganhavam um lugar sofisticado e elegante. Os olhos verdes de Jade brilhavam como os de uma criança e seu coração, mais uma vez, encheu-se de alegria.
“A alegria é um raio de luz que deve permanecer sempre aceso, iluminando todos nossos atos e servindo de guia a todos que se cheguem a nós.” Aquela orquídea chamava-se Míltoníopsis Santae.
Sentiu-se a mais jovem de todas as mulheres da face da terra, olhou-se no espelho, sentiu-se tão bonita como aquelas orquídeas. Um cartão! Apressada e curiosa abriu o cartão que dizia: “O Amor deve ser tanto Luz quanto chama” (Thoreau), e com letras cursivas, estava escrito “Obrigado por me ensinar tanto sobre mim mesmo”. Beijo, com muito carinho e calor. Hoje é dia 12 de junho.
Passou a contemplar aquelas flores como se contemplam os olhos do amado e mais uma vez sentiu-se inundada pela magia dos sentimentos renovadores do amor.
A seguir, a campainha soa e quase ela não pode ouvir, tão misturada ainda às flores.
Demora um pouco para atender a porta e o carteiro entrega-lhe um envelope onde não consta remetente. Era um envelope que continha um pequeno volume. -O que será, pensou ela?
Apalpa o envelope, imagina o que possa ter dentro e ao retirar o papel que o envolve, encontra uma caixinha de celular, mas não comprei um celular novo, que será isso? Tudo muito bem embrulhado, abre a caixa que tem várias camadas de papel, na primeira está escrito, envio-lhe uma amostra do perfume que uso, quem sabe você poderá saber quem sou, depois um pequeno frasco de um perfume feminino, exatamente o que Jade usava e bem escondidinho, debaixo da ultima camada, um pingente de brilhante pendurado numa delicada correntinha de ouro. Impresso em um cartão seguiam os dizeres: diamantes são para sempre e você sempre foi um diamante para mim, meu amor eterno.
Jade, feliz da vida, cheia de alegria, brilhando mais do que o brilhante que recebera e exalando mais perfume do que todas as flores, teve o mais lindo Dia dos Namorados de sua vida, sem que tivesse um único namorado.
Ela acreditava que quem ama é sempre surpreendido pelo amor, quem ama será amado e vive mais alegremente. O amor não acaba com o tempo e não tem tempo para acabar. Amar é o segredo para ser amado.
Não espere, viva o amor, agora e sempre!
A vida identifica os que têm os corações disponíveis, forte e gentil, e se entregam sem medo às aventuras que lhes reserva. A vida dá mais àqueles que vivem mais, e viver mais é estar em um lugar novo, diferente de todos os já vividos e diferente de tudo. Por isso que viver mais pode ser o caminho para a sabedoria, para a alegria, para o desapego, para novas experiências.
Quanto mais a vida nos dá de tempo a ser vivido, mais ela nos dá para transformarmos o que temos de mais rico, os mais diversos tipos de amor sentidos, os mais diversos tipos de relacionamentos.
Jade uma mulher incrível que conheci, trouxe-me esta história que me fez repensar o envelhecimento como um lugar de emoções que podem continuar a serem vividas e sentidas, um lugar onde as coisas podem continuar acontecendo sempre, dependendo da forma que se escolhe viver.
Ela era do tipo mignon, não mais de 1,60ms de altura, de traços delicados e pele fina, seu corpo trazia a graça dos movimentos livres e a energia traduzida em sua vitalidade. A idade não escondia, mas, já há tempos havia saído da casa dos cinquenta. Carregava ainda algo da menina, igualzinho ao retrato de sua infância. Um olhar presente, curioso, mas um tanto tímido, tornava-a ainda mais interessante. Embora olhasse com firmeza, não perdia o encanto que em qualquer canto desse olhar se reconhecia como o acolhimento, o afeto, o abraço que ele era capaz de dar. Estes olhos que tanto bons sentimentos expressavam, ainda por cima eram da cor da pedra preciosa, Jade, da onde seu nome fora escolhido.
O verde nos remete a natureza, as árvores, os campos, os mares, quase tudo nela vinha com o selo do natural. Sua genuinidade era sua “griffe”. Creio que, o que mais me chamou a atenção, quando a conheci, foi seu sorriso, que era tão receptivo e vivo como o seu olhar.
Ah! Como me encantei com o sorriso de Jade, parecia Monalisa, em cada um despertava um sentimento, um pensar, um começo... o começo de um encantamento. Por ela se encantavam os jovens, os homens, as mulheres e as crianças. O que Jade tinha de tão especial? Qual era o segredo de seu encantamento?
Sem dúvida eram muitas as qualidades de Jade, mas, a alegria, essa sim era a principal, que desabrochava naquele sorriso, o sorriso de Monalisa. A alegria, sua mais rica expressão do amor, do dar incondicionalmente.
Esta é uma das histórias de Jade alegre, divertida, romântica e surpreendente, que só pode acontecer com quem está com o coração aberto aos presentes que a vida tem a oferecer.
Jade sempre foi rodeada por muitas pessoas queridas, não se sentia sozinha mesmo não tendo se casado. Soube fazer amigos e conquistar a amizade das pessoas. Vivia às vezes, situações bem engraçadas, porque era despreendida e sabia aproveitar tudo que a vida lhe dava.
Era Dia dos Namorados e ela nem imaginava que o que estava por acontecer, a colocaria como a protagonista desta história, logo ela, que carregava em sua bagagem os louros de sua idade de ouro e em seus cabelos a mais pura prata.
Saiu para seu trabalho, seguindo a rotina de todos os dias e ao voltar do almoço, encontrou em sua mesa um lindo vaso de orquídeas brancas, que só poderiam ter sido escolhidas por alguém muito especial. Papéis de seda de tom lilás abraçavam delicadamente o vaso de barro, imprimindo uma qualidade de frescor matinal aquelas orquídeas que ganhavam um lugar sofisticado e elegante. Os olhos verdes de Jade brilhavam como os de uma criança e seu coração, mais uma vez, encheu-se de alegria.
“A alegria é um raio de luz que deve permanecer sempre aceso, iluminando todos nossos atos e servindo de guia a todos que se cheguem a nós.” Aquela orquídea chamava-se Míltoníopsis Santae.
Sentiu-se a mais jovem de todas as mulheres da face da terra, olhou-se no espelho, sentiu-se tão bonita como aquelas orquídeas. Um cartão! Apressada e curiosa abriu o cartão que dizia: “O Amor deve ser tanto Luz quanto chama” (Thoreau), e com letras cursivas, estava escrito “Obrigado por me ensinar tanto sobre mim mesmo”. Beijo, com muito carinho e calor. Hoje é dia 12 de junho.
Passou a contemplar aquelas flores como se contemplam os olhos do amado e mais uma vez sentiu-se inundada pela magia dos sentimentos renovadores do amor.
A seguir, a campainha soa e quase ela não pode ouvir, tão misturada ainda às flores.
Demora um pouco para atender a porta e o carteiro entrega-lhe um envelope onde não consta remetente. Era um envelope que continha um pequeno volume. -O que será, pensou ela?
Apalpa o envelope, imagina o que possa ter dentro e ao retirar o papel que o envolve, encontra uma caixinha de celular, mas não comprei um celular novo, que será isso? Tudo muito bem embrulhado, abre a caixa que tem várias camadas de papel, na primeira está escrito, envio-lhe uma amostra do perfume que uso, quem sabe você poderá saber quem sou, depois um pequeno frasco de um perfume feminino, exatamente o que Jade usava e bem escondidinho, debaixo da ultima camada, um pingente de brilhante pendurado numa delicada correntinha de ouro. Impresso em um cartão seguiam os dizeres: diamantes são para sempre e você sempre foi um diamante para mim, meu amor eterno.
Jade, feliz da vida, cheia de alegria, brilhando mais do que o brilhante que recebera e exalando mais perfume do que todas as flores, teve o mais lindo Dia dos Namorados de sua vida, sem que tivesse um único namorado.
Ela acreditava que quem ama é sempre surpreendido pelo amor, quem ama será amado e vive mais alegremente. O amor não acaba com o tempo e não tem tempo para acabar. Amar é o segredo para ser amado.
Não espere, viva o amor, agora e sempre!
Gentileza, um caminho para o Amor!
Tenho percebido o avanço cada vez mais rápido das mudanças de valores, comportamentos, regras e atitudes pelas quais as pessoas estão passando. Tudo passa aos nossos olhos, a uma velocidade incontrolável e confesso que muitas coisas chegam a me apavorar.
Gosto de acordar e iniciar meu dia com uma caminhada seja na praia ou no parque próximo de onde moro. Enquanto caminho para alcançar os jardins do parque, vou pelas ruas encontrando os primeiros sinais de uma nova manhã. Um Bom dia, aqui, outro Bom dia acolá, são pessoas num vai e vem, são carros que se espremem e aproveitam qualquer espaço para garantirem um lugar de chegar primeiro, não sei aonde. Entre ladeiras, calçadas, faixa de pedestre, meu corpo se estica, se desdobra, num sobe e desce, num balançar que me faz tomar contacto com a minha própria dimensão neste universo tão grande e tão recheado de diversidade. Massageio meu rosto com delicadeza para receber minhas próprias caricias, solto os cabelos para que eles possam encontrar meus pensamentos que se emaranharam nos meus sonhos da madrugada. Encho meu peito de ar para me dar coragem de enfrentar todas as mudanças as quais estarei exposta naquele dia que se prenuncia. Olho tudo ao redor e sou abençoada pela vida que me encanta e me recebe todas as manhãs.
Chego ao Parque, no Museu do Ipiranga. Meus olhos se atraem por uma majestosa árvore de Tipuana, depois uma Sibipiruna, as Jaqueiras, as Palmeiras Imperiais, por quanta beleza sou reverenciada, como essas árvores sem saberem se entregam a mim e encantam-me por toda a gentileza com que me recebem. Sou despertada por um silencio de meditação e contemplação, procuro então, descobrir nas sombras, nas paisagens que vão mudando à medida que vou caminhando, o quanto à natureza derrama em(sobre) nós a “Gentileza”. Percebo que a Natureza também nos dá um testemunho que “Gentileza gera Gentileza”. Acompanho, se ainda é bem cedinho a brincadeira que o Sol faz com a Lua, ele se posiciona de um lado e ela de outro, oponentes sim, mas, gentis sempre, ele com seu calor e raios fortes convida-a para sair e ela tão feminina em sua branca nudez desmaiando do cansaço da noite de vigília, ainda querendo talvez lamber as gotas de orvalho que o Sol providenciou para lhe matar a sede, parece insistir em ficar mais um pouco. Depois...ouço os pássaros, tão diversos, com seus cantares variados, espalham gentilezas feito um coral de vozes de crianças. Quanta Gentileza ao nosso redor.
Mas, parece que tudo tem passado aos nossos olhos de uma forma que estamos desvalorizando o que antes tinha valor, cuidados sendo substituídos por desatenção, delicadeza por rudeza quando nos dirigimos ao outro.
Encanta-me ainda a Gentileza e passo a refletir o quanto estamos cada vez mais carentes de delicadeza, de sorriso, de atenção, amabilidade, elegância, graciosidade, acolhimento. Precisamos aprender com a natureza o que ela tem nos dado de graça e devolver-lhe na mesma sintonia.
A música de Marisa Monte homenageando José Datrino, o Profeta Gentileza que caminhava nas ruas do Rio de Janeiro, deixando seus escritos Gentileza gera Gentileza, faz-me repensar, que à medida que não somos mais gentis com a Natureza e tampouco com nosso próximo, tudo se apaga, ficarão nos muros, tristeza e tinta fresca.
A Gentileza é capaz de derrubar muros de abismos, de aproximar os distantes, de derreter mal entendidos, de afastar a intolerância, de gerar cuidado, de plantar ternura e de nos fazer queridos por alguém, pois através dela estamos dizendo ao outro eu me importo com você, criando assim a possibilidade de abrir um caminho para o amor.
Gosto de acordar e iniciar meu dia com uma caminhada seja na praia ou no parque próximo de onde moro. Enquanto caminho para alcançar os jardins do parque, vou pelas ruas encontrando os primeiros sinais de uma nova manhã. Um Bom dia, aqui, outro Bom dia acolá, são pessoas num vai e vem, são carros que se espremem e aproveitam qualquer espaço para garantirem um lugar de chegar primeiro, não sei aonde. Entre ladeiras, calçadas, faixa de pedestre, meu corpo se estica, se desdobra, num sobe e desce, num balançar que me faz tomar contacto com a minha própria dimensão neste universo tão grande e tão recheado de diversidade. Massageio meu rosto com delicadeza para receber minhas próprias caricias, solto os cabelos para que eles possam encontrar meus pensamentos que se emaranharam nos meus sonhos da madrugada. Encho meu peito de ar para me dar coragem de enfrentar todas as mudanças as quais estarei exposta naquele dia que se prenuncia. Olho tudo ao redor e sou abençoada pela vida que me encanta e me recebe todas as manhãs.
Chego ao Parque, no Museu do Ipiranga. Meus olhos se atraem por uma majestosa árvore de Tipuana, depois uma Sibipiruna, as Jaqueiras, as Palmeiras Imperiais, por quanta beleza sou reverenciada, como essas árvores sem saberem se entregam a mim e encantam-me por toda a gentileza com que me recebem. Sou despertada por um silencio de meditação e contemplação, procuro então, descobrir nas sombras, nas paisagens que vão mudando à medida que vou caminhando, o quanto à natureza derrama em(sobre) nós a “Gentileza”. Percebo que a Natureza também nos dá um testemunho que “Gentileza gera Gentileza”. Acompanho, se ainda é bem cedinho a brincadeira que o Sol faz com a Lua, ele se posiciona de um lado e ela de outro, oponentes sim, mas, gentis sempre, ele com seu calor e raios fortes convida-a para sair e ela tão feminina em sua branca nudez desmaiando do cansaço da noite de vigília, ainda querendo talvez lamber as gotas de orvalho que o Sol providenciou para lhe matar a sede, parece insistir em ficar mais um pouco. Depois...ouço os pássaros, tão diversos, com seus cantares variados, espalham gentilezas feito um coral de vozes de crianças. Quanta Gentileza ao nosso redor.
Mas, parece que tudo tem passado aos nossos olhos de uma forma que estamos desvalorizando o que antes tinha valor, cuidados sendo substituídos por desatenção, delicadeza por rudeza quando nos dirigimos ao outro.
Encanta-me ainda a Gentileza e passo a refletir o quanto estamos cada vez mais carentes de delicadeza, de sorriso, de atenção, amabilidade, elegância, graciosidade, acolhimento. Precisamos aprender com a natureza o que ela tem nos dado de graça e devolver-lhe na mesma sintonia.
A música de Marisa Monte homenageando José Datrino, o Profeta Gentileza que caminhava nas ruas do Rio de Janeiro, deixando seus escritos Gentileza gera Gentileza, faz-me repensar, que à medida que não somos mais gentis com a Natureza e tampouco com nosso próximo, tudo se apaga, ficarão nos muros, tristeza e tinta fresca.
A Gentileza é capaz de derrubar muros de abismos, de aproximar os distantes, de derreter mal entendidos, de afastar a intolerância, de gerar cuidado, de plantar ternura e de nos fazer queridos por alguém, pois através dela estamos dizendo ao outro eu me importo com você, criando assim a possibilidade de abrir um caminho para o amor.
Quem nunca se sentiu culpado?
Tenho acompanhado de perto as alegrias e os sofrimentos humanos. Por vezes, parece que a alegria ocupa o lugar de um hóspede, passa rápido e o sofrimento se torna um inquilino por tempo indeterminado. Quando o sofrimento é nomeado de culpa, aí sim, pode permanecer e incomodar por muito mais tempo do que às vezes conseguimos suportar.
Conheci pessoas que carregavam tanta culpa em seus corações, que seus corpos denunciavam aquilo que ainda elas não sabiam nomear.
Tem mulher que se culpa de sair com as amigas ou sozinha para fazer uma compra no Shopping e não levar os filhos, outras se culpam por comprarem um vestido novo e não terem levado nada para o marido, culpam-se porque deram boas gargalhadas assistindo uma comédia na sessão da tarde e deixaram a roupa para ser passada. Culpam-se por terem tido um orgasmo.
E aquele sujeito que se culpa por comprar o carro do ano, quando seu pai não conseguiu nem se quer ter o primeiro carro. Muitos homens sofrem impotência e não conseguem ter uma ereção que os levará a ter prazer, pode acreditar? O que dizer então daquelas pessoas que se culpam por viajar, por comer bem, por vestir-se bem, por não agradar, por não fazer, por fazer, por rir, por chorar. O que quero dizer, é que a humanidade aprendeu a culpabilizar-se por quase tudo, principalmente pelas situações geradoras de prazer.
Assim entendo, que a culpa impede a busca ou a realização de um prazer. A busca do prazer é o que nos leva a gratificação, ao bem-estar, a plenitude de nosso ser, ao relaxamento e a satisfação.
Sabemos que desde que nascemos vamos construindo nossas crenças, sobre o mundo que nos espera.
Ao nascer vamos formatando um mundo digno de nossa confiança, onde nos sentiremos seguros, estimados, merecedores de amor, se tivemos uma família acolhedora e amorosa. Ou um mundo onde duvidaremos do amor, caso tenhamos tido uma família, onde a escassez de amor nos ajudou a duvidar de nossa capacidade, que não nos fortaleceu na auto-estima, que nos reprovou, que nos criticou, nos julgou, abusou, rejeitou, abandonou. Então, o que nos espera? Uma luta diária para enfrentarmos nossos medos, nossas angustias, nossos temores, nossa raiva contra nós mesmos, gerados e empacotados no invólucro da culpa.
Para quem não sabe, a culpa é aquele sentimento de que se “está sempre em débito”, “está sempre devendo alguma coisa”, “está em falta” com alguém ou com alguma coisa. Assim, o culpado sente que deveria ser melhor, deveria ter dado conta, deveria ter terminado, deveria ter feito mais, ter ficado até o fim, ter ficado menos tempo, ter comprado o mais barato, ter comido menos, ter dormido menos, ter voltado mais cedo, enfim... já deu para entender que tudo terá uma razão.
A culpa aprisiona, paralisa, impede o crescimento e a vida. A pessoa que se sente culpada, não tem prazer, tem muito medo de errar e de arriscar, pode tornar-se dependente, infeliz e doente. A culpa adia o desejo de viver.
Aqueles que se sentirem tocados por esse artigo e quiserem fazer algo para sair desse lugar incomodo que a culpa os coloca, sugiro que façam um retrospecto de seu histórico de vida e olhem quando a culpa começou a entrar em sua história.
Se você já tem ideia do que lhe faz sentir culpa, pense se você poderia ter feito alguma coisa que não fez naquela ocasião. Você tinha idade suficiente para fazê-lo? Era o melhor que podia ter feito? Se fosse hoje, que atitude teria tomado?
Lembre-se que a culpa contem desejos pessoais que às vezes não os reconhecemos. Reconheça-os e comece a se responsabilizar pelos seus atos e confie que você é a única pessoa que pode fazer algo por você mesmo e que tem a capacidade para a mudança.
Vá enfrente e um Bom Ano de Transformação e Crescimento.
Conheci pessoas que carregavam tanta culpa em seus corações, que seus corpos denunciavam aquilo que ainda elas não sabiam nomear.
Tem mulher que se culpa de sair com as amigas ou sozinha para fazer uma compra no Shopping e não levar os filhos, outras se culpam por comprarem um vestido novo e não terem levado nada para o marido, culpam-se porque deram boas gargalhadas assistindo uma comédia na sessão da tarde e deixaram a roupa para ser passada. Culpam-se por terem tido um orgasmo.
E aquele sujeito que se culpa por comprar o carro do ano, quando seu pai não conseguiu nem se quer ter o primeiro carro. Muitos homens sofrem impotência e não conseguem ter uma ereção que os levará a ter prazer, pode acreditar? O que dizer então daquelas pessoas que se culpam por viajar, por comer bem, por vestir-se bem, por não agradar, por não fazer, por fazer, por rir, por chorar. O que quero dizer, é que a humanidade aprendeu a culpabilizar-se por quase tudo, principalmente pelas situações geradoras de prazer.
Assim entendo, que a culpa impede a busca ou a realização de um prazer. A busca do prazer é o que nos leva a gratificação, ao bem-estar, a plenitude de nosso ser, ao relaxamento e a satisfação.
Sabemos que desde que nascemos vamos construindo nossas crenças, sobre o mundo que nos espera.
Ao nascer vamos formatando um mundo digno de nossa confiança, onde nos sentiremos seguros, estimados, merecedores de amor, se tivemos uma família acolhedora e amorosa. Ou um mundo onde duvidaremos do amor, caso tenhamos tido uma família, onde a escassez de amor nos ajudou a duvidar de nossa capacidade, que não nos fortaleceu na auto-estima, que nos reprovou, que nos criticou, nos julgou, abusou, rejeitou, abandonou. Então, o que nos espera? Uma luta diária para enfrentarmos nossos medos, nossas angustias, nossos temores, nossa raiva contra nós mesmos, gerados e empacotados no invólucro da culpa.
Para quem não sabe, a culpa é aquele sentimento de que se “está sempre em débito”, “está sempre devendo alguma coisa”, “está em falta” com alguém ou com alguma coisa. Assim, o culpado sente que deveria ser melhor, deveria ter dado conta, deveria ter terminado, deveria ter feito mais, ter ficado até o fim, ter ficado menos tempo, ter comprado o mais barato, ter comido menos, ter dormido menos, ter voltado mais cedo, enfim... já deu para entender que tudo terá uma razão.
A culpa aprisiona, paralisa, impede o crescimento e a vida. A pessoa que se sente culpada, não tem prazer, tem muito medo de errar e de arriscar, pode tornar-se dependente, infeliz e doente. A culpa adia o desejo de viver.
Aqueles que se sentirem tocados por esse artigo e quiserem fazer algo para sair desse lugar incomodo que a culpa os coloca, sugiro que façam um retrospecto de seu histórico de vida e olhem quando a culpa começou a entrar em sua história.
Se você já tem ideia do que lhe faz sentir culpa, pense se você poderia ter feito alguma coisa que não fez naquela ocasião. Você tinha idade suficiente para fazê-lo? Era o melhor que podia ter feito? Se fosse hoje, que atitude teria tomado?
Lembre-se que a culpa contem desejos pessoais que às vezes não os reconhecemos. Reconheça-os e comece a se responsabilizar pelos seus atos e confie que você é a única pessoa que pode fazer algo por você mesmo e que tem a capacidade para a mudança.
Vá enfrente e um Bom Ano de Transformação e Crescimento.
Cartão de Natal.
Estava outra noite lendo meu correio eletrônico e recebi um e-mail de uma amiga que mora em Nova York: “- Recebeu meu cartão de Natal?”. Naquele instante, algo acendeu dentro de mim, como as luzes que vão se acendendo na cidade nos dias que antecedem as festas de fim de ano e que nos trazem o brilho do Natal. Uma a uma as lamparinas da minha memória foram se acendendo e trazendo as mais gratas lembranças que fizeram dos meus Natais, os mais lindos Natais.
Uma das lembranças mais pungentes que tive foi voltar a me ver como uma criança. Penso que só posso sentir o Natal se deixo iluminar em mim a Criança que ainda carrego na alma. Só as crianças tem a capacidade de se encantarem com a magia do Natal, pois elas, sem esforço algum, com toda sua naturalidade trazem em sua essência o Amor e podem vivê-lo na Igualdade, na Fraternidade, na Solidariedade, na Alegria, na Entrega, na Fé, na Caridade.
Minha menina contava os dias para o Natal, como contava os dias para seu aniversário, para ela eram as duas datas mais importantes relacionadas a nascimento e festa. Nos aniversários da minha menina, sempre tinha muita gente, a família se reunia, cada uma das minhas tias, minha madrinha, meus amigos de escola traziam-me presentes. A alegria e carinho, lembro-me bem, eram os acordes da música de fundo das minhas festas. No Natal, a festa era ainda maior, comemorávamos o nascimento de Jesus e era uma festa de aniversário que durava dois dias e tinham muitos preparativos.
Desta feita, a festa era na casa da minha avó que junto com as minhas tias, tomavam conta da cozinha e numa democrática divisão de tarefas, se ocupavam da ceia de Natal.O preparo começava bem antes, uma semana talvez ou até mais. Nas manhãs e tardes que precediam a ceia, a festa já se prenunciava.
O Natal começava a ser desenhado na dinâmica da casa, as mulheres tagarelando conversas na cozinha, certamente contando sobre as crianças que corriam desenfreadas entre sala, corredores, jardins, brincando livremente de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, ansiosas na espera do Papai-Noel que chegaria com seu saco de presentes jogado pela chaminé, e certamente todas teriam sido boazinhas e bem comportadas para serem atendidas em seus pedidos.
O cheiro de Natal fazia-se presente em cada detalhe, em cada cômodo da casa. Era de lá da cozinha que saiam os cheiros que carrego na memória até hoje. A massa fresca descansava à mesa, coberta por panos brancos, como uma noiva, aguardando para ser abraçada por um recheio que a transformaria em capeletes, todos iguaizinhos, do mesmo tamanho e do mesmo formato. Nos caldeirões fervilhavam os molhos temperados com manjericão, oréganos, sálvia e outras ervas frescas. Ainda me lembro dos cheiros dos assados e das caldas doces, que certamente cobririam os manjares e pavês. Minha alma ainda hoje é despertada pelo cheiro das frutas natalinas, pêssegos, ameixas, tâmaras, figos turcos.
À noite, todos colocavam roupas de festa e se encontravam na sala onde uma árvore de Natal colorida de bolas e anjos, despertava em cada um o espírito da união e fraternidade. Todos de mãos dadas rezavam pelo Nascimento de Jesus e agradeciam por terem aquela família, eram gratos pela saúde e a possibilidade de estarem todos reunidos.
Sou imensamente grata à minha amiga que o cada ano, ao enviar-me um cartão de Natal desperta a criança que mora em mim e me torna capaz de prenunciar a chegada do menino Jesus.
O ato de escolhermos um cartão de Natal para uma pessoa já a faz única e especial, as palavras lá escritas, realimentam seu espírito dos sentimentos que o Natal trás em seu bojo. Palavras ternas reafirmam nosso lugar com aquele que enviou o cartão. Um cartão é a confirmação da amizade, do amor, da continuidade, o que desejamos para o nosso próximo é o que receberemos de volta do universo.
Uma das lembranças mais pungentes que tive foi voltar a me ver como uma criança. Penso que só posso sentir o Natal se deixo iluminar em mim a Criança que ainda carrego na alma. Só as crianças tem a capacidade de se encantarem com a magia do Natal, pois elas, sem esforço algum, com toda sua naturalidade trazem em sua essência o Amor e podem vivê-lo na Igualdade, na Fraternidade, na Solidariedade, na Alegria, na Entrega, na Fé, na Caridade.
Minha menina contava os dias para o Natal, como contava os dias para seu aniversário, para ela eram as duas datas mais importantes relacionadas a nascimento e festa. Nos aniversários da minha menina, sempre tinha muita gente, a família se reunia, cada uma das minhas tias, minha madrinha, meus amigos de escola traziam-me presentes. A alegria e carinho, lembro-me bem, eram os acordes da música de fundo das minhas festas. No Natal, a festa era ainda maior, comemorávamos o nascimento de Jesus e era uma festa de aniversário que durava dois dias e tinham muitos preparativos.
Desta feita, a festa era na casa da minha avó que junto com as minhas tias, tomavam conta da cozinha e numa democrática divisão de tarefas, se ocupavam da ceia de Natal.O preparo começava bem antes, uma semana talvez ou até mais. Nas manhãs e tardes que precediam a ceia, a festa já se prenunciava.
O Natal começava a ser desenhado na dinâmica da casa, as mulheres tagarelando conversas na cozinha, certamente contando sobre as crianças que corriam desenfreadas entre sala, corredores, jardins, brincando livremente de esconde-esconde, pega-pega, amarelinha, ansiosas na espera do Papai-Noel que chegaria com seu saco de presentes jogado pela chaminé, e certamente todas teriam sido boazinhas e bem comportadas para serem atendidas em seus pedidos.
O cheiro de Natal fazia-se presente em cada detalhe, em cada cômodo da casa. Era de lá da cozinha que saiam os cheiros que carrego na memória até hoje. A massa fresca descansava à mesa, coberta por panos brancos, como uma noiva, aguardando para ser abraçada por um recheio que a transformaria em capeletes, todos iguaizinhos, do mesmo tamanho e do mesmo formato. Nos caldeirões fervilhavam os molhos temperados com manjericão, oréganos, sálvia e outras ervas frescas. Ainda me lembro dos cheiros dos assados e das caldas doces, que certamente cobririam os manjares e pavês. Minha alma ainda hoje é despertada pelo cheiro das frutas natalinas, pêssegos, ameixas, tâmaras, figos turcos.
À noite, todos colocavam roupas de festa e se encontravam na sala onde uma árvore de Natal colorida de bolas e anjos, despertava em cada um o espírito da união e fraternidade. Todos de mãos dadas rezavam pelo Nascimento de Jesus e agradeciam por terem aquela família, eram gratos pela saúde e a possibilidade de estarem todos reunidos.
Sou imensamente grata à minha amiga que o cada ano, ao enviar-me um cartão de Natal desperta a criança que mora em mim e me torna capaz de prenunciar a chegada do menino Jesus.
O ato de escolhermos um cartão de Natal para uma pessoa já a faz única e especial, as palavras lá escritas, realimentam seu espírito dos sentimentos que o Natal trás em seu bojo. Palavras ternas reafirmam nosso lugar com aquele que enviou o cartão. Um cartão é a confirmação da amizade, do amor, da continuidade, o que desejamos para o nosso próximo é o que receberemos de volta do universo.
Conversações
Mais uma vez trago para nossa reflexão um tema determinante nos cenários humanos - as conversações.
Paro sempre a pensar com que facilidade as pessoas se engajam em conversas geradoras de conflitos. Penso até, que estamos mais treinados para conversações conflituosas do que para conversações de compartilhamento.
Gosto muito de observar as pessoas conversando, seja em situações informais ou mais formais, e acabo me perguntando: realmente nós estamos abertos, somos receptivos, sabemos escutar as histórias que nos contam? Sabemos ser parceiro de conversas?
Dentre as escutas que tenho acompanhado, a mais clássica é aquela das pessoas que se engajam numa conversa, só para falar. Seu objetivo principal é manter a dominação sobre o outro, seu alvo é o controle e o poder.
Falam de tudo, de todos. Falam o tempo todo. Usam o espaço da conversa, como um simples passatempo, um jogo para reafirmar sua posição de dominação e de “Não é que eu tinha razão?” ou “Eu é que estava certo”.
Não criam oportunidade para trocas, saem esvaziados, mas não gratificados, não utilizaram aquele espaço de conversação para transformar seus conceitos, para validar seu comportamento, seus sentimentos e emoções. Desperdiçam a chance de resignificar pedaços de sua história, de escutar opiniões diferentes, aproveitar a experiência do outro e implantar o novo.
Ainda tem aquela situação terrível, que ao encontrarmos alguém para falar alguma coisa importante que estamos ultra, super necessitados de contar e começamos dizendo: “sabe, eu quero te contar o que aconteceu comigo”, seu parceiro de escuta, vira para você e diz: “ ihihih! Isso não é nada! O que aconteceu comigo foi muito pior, ou melhor”, e tira você de cena, ele não te escuta, ele não te respeita, você se sente sem importância e desqualificado. Estas são conversações geradoras de conflitos, de mal estar.
Conversas constrangedoras são aquelas que você se sente tão invadido e sem tempo para pensar em uma resposta, que você sai como se um “tsunami” tivesse te arrastado. Você se sente como se tivesse sido atacado, fica atônito por tanta falta de respeito, gerada nessa situação. São aquelas pessoas que chegam, em geral quando você não está sozinho e vem perguntando: nossa, eu soube que você está se separando, que aconteceu? Mudou de emprego? E quanto você está ganhando agora? Eu soube que você vendeu seu apto na praia, quem foi o louco que pagou tudo aquilo?
Outras conversas ocorrem como se você estivesse em um tribunal. A pessoa começa lhe perguntando sobre tudo. Você tem filhos, ah! Não. Por que, não quer ou não vem? Não pode esperar tanto tempo, é bom ter filhos cedo. Estas pessoas não querem de verdade saber sobre o outro, porque se tivesse empatia, compaixão, não colocariam as pessoas em situações delicadas, às vezes trazendo um assunto que pode estar tocando-a num lugar sensível, de dificuldades, de dor.
Neste caso, quem pergunta, não quer ouvir o outro, pois já trás a própria resposta. Isso é um tipo de desvalorização, em que quem sai da conversa sente-se inferior, ou incapaz, com sentimento de que algo não caiu bem.
Penso que cada um de nós é capaz de lembrar uma situação onde se sentiu mal durante ou após terminar uma conversa. Se você já foi vítima dessas ciladas, nada melhor do que olhar para si e perceber como você está se colocando como um interlocutor nas conversações.
Ouvir e acolher o outro genuinamente, interessar-se de fato pelo que o outro nos trás, é um ato de amor, de solidariedade, de companheirismo, de amizade, de aceitação.
Que tal começarmos a prestar mais atenção em nós mesmos e perceber se estamos sendo pólos de acolhimento, consideração pelo outro ou se estamos contribuindo para criarmos situações embaraçosas ou conflitantes.
Comece já, faça de você um ser atraente, querido, receptivo, experimente e veja como você será uma fonte de bem-estar para seu próximo.
Paro sempre a pensar com que facilidade as pessoas se engajam em conversas geradoras de conflitos. Penso até, que estamos mais treinados para conversações conflituosas do que para conversações de compartilhamento.
Gosto muito de observar as pessoas conversando, seja em situações informais ou mais formais, e acabo me perguntando: realmente nós estamos abertos, somos receptivos, sabemos escutar as histórias que nos contam? Sabemos ser parceiro de conversas?
Dentre as escutas que tenho acompanhado, a mais clássica é aquela das pessoas que se engajam numa conversa, só para falar. Seu objetivo principal é manter a dominação sobre o outro, seu alvo é o controle e o poder.
Falam de tudo, de todos. Falam o tempo todo. Usam o espaço da conversa, como um simples passatempo, um jogo para reafirmar sua posição de dominação e de “Não é que eu tinha razão?” ou “Eu é que estava certo”.
Não criam oportunidade para trocas, saem esvaziados, mas não gratificados, não utilizaram aquele espaço de conversação para transformar seus conceitos, para validar seu comportamento, seus sentimentos e emoções. Desperdiçam a chance de resignificar pedaços de sua história, de escutar opiniões diferentes, aproveitar a experiência do outro e implantar o novo.
Ainda tem aquela situação terrível, que ao encontrarmos alguém para falar alguma coisa importante que estamos ultra, super necessitados de contar e começamos dizendo: “sabe, eu quero te contar o que aconteceu comigo”, seu parceiro de escuta, vira para você e diz: “ ihihih! Isso não é nada! O que aconteceu comigo foi muito pior, ou melhor”, e tira você de cena, ele não te escuta, ele não te respeita, você se sente sem importância e desqualificado. Estas são conversações geradoras de conflitos, de mal estar.
Conversas constrangedoras são aquelas que você se sente tão invadido e sem tempo para pensar em uma resposta, que você sai como se um “tsunami” tivesse te arrastado. Você se sente como se tivesse sido atacado, fica atônito por tanta falta de respeito, gerada nessa situação. São aquelas pessoas que chegam, em geral quando você não está sozinho e vem perguntando: nossa, eu soube que você está se separando, que aconteceu? Mudou de emprego? E quanto você está ganhando agora? Eu soube que você vendeu seu apto na praia, quem foi o louco que pagou tudo aquilo?
Outras conversas ocorrem como se você estivesse em um tribunal. A pessoa começa lhe perguntando sobre tudo. Você tem filhos, ah! Não. Por que, não quer ou não vem? Não pode esperar tanto tempo, é bom ter filhos cedo. Estas pessoas não querem de verdade saber sobre o outro, porque se tivesse empatia, compaixão, não colocariam as pessoas em situações delicadas, às vezes trazendo um assunto que pode estar tocando-a num lugar sensível, de dificuldades, de dor.
Neste caso, quem pergunta, não quer ouvir o outro, pois já trás a própria resposta. Isso é um tipo de desvalorização, em que quem sai da conversa sente-se inferior, ou incapaz, com sentimento de que algo não caiu bem.
Penso que cada um de nós é capaz de lembrar uma situação onde se sentiu mal durante ou após terminar uma conversa. Se você já foi vítima dessas ciladas, nada melhor do que olhar para si e perceber como você está se colocando como um interlocutor nas conversações.
Ouvir e acolher o outro genuinamente, interessar-se de fato pelo que o outro nos trás, é um ato de amor, de solidariedade, de companheirismo, de amizade, de aceitação.
Que tal começarmos a prestar mais atenção em nós mesmos e perceber se estamos sendo pólos de acolhimento, consideração pelo outro ou se estamos contribuindo para criarmos situações embaraçosas ou conflitantes.
Comece já, faça de você um ser atraente, querido, receptivo, experimente e veja como você será uma fonte de bem-estar para seu próximo.
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