Naquela segunda-feira senti um gosto diferente de todas as segundas de manhã.
Acordei antes do dia e nem bem sabia que horas ele ia querer clarear, ou se encruaria no seu ventre, mais uma manhã fria, companheira das neblinas acinzentadas que prenunciavam a entrada do Inverno. Estávamos precisamente dando as Boas Vindas para a primeira manhã do inverno.
Lembro-me, no entanto, que meu corpo e meus pensamentos, ainda aquecidos pelos sonhos da madrugada e, emaranhados no lençol morno e macio, abriam pequenos flashes dos sonhos que havia sonhado.Num espreguiçar bem gostoso, cuidadoso, despertei meu corpo alongando-o, esticando-o lentamente, amorosamente, para que ele pudesse devolver-me sem pressa a mais profunda sensação de prazer e bem estar.
Depois, fui desdobrando delicadamente cada sulco do meu cérebro, fui despindo-o sem pudor na esperança de coletar em minha memória, todas as gotas de orvalho que foram produzidas na noite do domingo que já findara.
Lá fora havia um silêncio cúmplice, que permitia que tudo em mim se harmonizasse para receber o novo. Cada dia a vida se renovava de dentro para fora, e eu estava aberta para a nova Estação, a nova manhã, a hora nova, a nova semana.
Revisitei todos os lugares que vaguei durante a madrugada e vieram na lembrança os sonhos que sonhei. Aí, reconheci que aquela só podia ter sido uma manhã especial.
Havia eu sonhado com a chegada de um novo bebê em nossa família, onde eu teria sido a dola daquele parto. O bebê também como eu se espreguiçava na chegada ao mundo e eu procurava a melhor, a mais acolhedora e macia manta para aconchegá-lo, recebê-lo.
Que delícia a sensação de participar daquele momento mágico e único, o momento do nascimento. Renascer a cada manhã e anunciar a vida que se renova, é o maior presente que podemos receber.
O que em mim anunciava a chegada do novo? Não suspeitava o que seria! Que novo era aquele que chegava em pleno inverno, no outono da minha existência?
Sem que eu desse mais tempo para poder decifrar esse sonho, rapidamente um outro invadiu minha mente, caindo como partículas de mosaicos, e comecei a juntar pedrinha por pedrinha, para entender qual a mensagem que este me trazia.
Surgiu uma cena... Uma foto em preto e branco se configurou frente à lente dos meus olhos, ”foi o encontro com meu amor primeiro”. O que estava por vir? Perguntei-me e fui atrás das respostas.
Da história como enredo, não me lembrei. Esforcei-me até para resgatá-la, mas nada! O que ganhava força eram as fortes sensações viscerais, que o sonho trazia. Quando essas lembranças tomaram forma em meu pensamento, aí sim, o dia acordou. Foi como se as janelas se abrissem e do Inverno se fez Verão. O Sol mesmo ausente marcava sua presença entre as nuvens, tocando-me na pele, aquecia-me, penetrava em minhas cavernas e ternamente, sentia-me abraçada, envolvida, acariciada.
Fui abraçada por um abraço que nunca tive, quando vivi o meu primeiro amor. Só conheci o verdadeiro abraço, reconstrutor, acolhedor, regenerador, curativo, fortalecedor, na minha longa caminhada pela vida, em cada história de chegada e de partida, em cada história de morada, em cada história cativa.
Que homem seria esse que deixei lá atrás na minha história de vida, de amor.
Lembrei-me de Chico Buarque, lembrei-me de Caetano, lembrei-me de meu pai e de tantos outros...
Com Chico, encontrei-me lá bem no início e ele cantou as várias mulheres que poderia compor e desabrochar dentro de mim.Cantou-me e prenunciou-me de várias formas. Mulher guerreira, de Atenas, mulher do cais, mulher mãe, mulher amante...Vestiu minha pele feminina interpretando-a nas canções como “Olhos nos Olhos”, “Pedaço de Mim” e permaneceu em mim feito “Tatuagem”. Ah! Chico, se você soubesse como você me encantou!
Através dele, recordei-me dos bons moços que conheci.Transformaram-se em homens de ouro, em jóias preciosas, compuseram a mais rica safra dos homens que hoje beiram ou passam dos sessenta. Como Chico, eram líricos, provocadores, românticos, participativos da ditadura militar, sonhadores, leais, apaixonados e apaixonantes, confiáveis e confiantes.Escreveram uma “página feliz da minha história”, pois me ajudaram na construção da mulher que trago em mim.
Aquela manhã foi diferente de todas as outras...Trouxe em seu cerne, a gratidão e a certeza, que mesmo o que não foi, deixou lembranças de coisas boas...De tempos felizes...
As mulheres sempre ocupam e ocuparão o lugar da que inspira os poetas, os escritores, que desperta a imaginação.A mulher é sempre cantada em versos e prosa.
Será que já não é tempo de trazermos os encantos do universo masculino, desses dos anos cinquenta, que amavam os Beatles e os Rollingstons, que foram capazes de nos dar um lugar tão especial como Mulher?
Que ainda hoje, quando o Inverno bate na porta para entrar, nossas manhãs ficam mais quentes, porque lembramos que por esses homens fomos amadas e mantem viva dentro de nós a chama do Verão, mesmo que estejamos vivendo a nossa estação outonal?
A todos esses homens que conheci, minha gratidão!
Acordei antes do dia e nem bem sabia que horas ele ia querer clarear, ou se encruaria no seu ventre, mais uma manhã fria, companheira das neblinas acinzentadas que prenunciavam a entrada do Inverno. Estávamos precisamente dando as Boas Vindas para a primeira manhã do inverno.
Lembro-me, no entanto, que meu corpo e meus pensamentos, ainda aquecidos pelos sonhos da madrugada e, emaranhados no lençol morno e macio, abriam pequenos flashes dos sonhos que havia sonhado.Num espreguiçar bem gostoso, cuidadoso, despertei meu corpo alongando-o, esticando-o lentamente, amorosamente, para que ele pudesse devolver-me sem pressa a mais profunda sensação de prazer e bem estar.
Depois, fui desdobrando delicadamente cada sulco do meu cérebro, fui despindo-o sem pudor na esperança de coletar em minha memória, todas as gotas de orvalho que foram produzidas na noite do domingo que já findara.
Lá fora havia um silêncio cúmplice, que permitia que tudo em mim se harmonizasse para receber o novo. Cada dia a vida se renovava de dentro para fora, e eu estava aberta para a nova Estação, a nova manhã, a hora nova, a nova semana.
Revisitei todos os lugares que vaguei durante a madrugada e vieram na lembrança os sonhos que sonhei. Aí, reconheci que aquela só podia ter sido uma manhã especial.
Havia eu sonhado com a chegada de um novo bebê em nossa família, onde eu teria sido a dola daquele parto. O bebê também como eu se espreguiçava na chegada ao mundo e eu procurava a melhor, a mais acolhedora e macia manta para aconchegá-lo, recebê-lo.
Que delícia a sensação de participar daquele momento mágico e único, o momento do nascimento. Renascer a cada manhã e anunciar a vida que se renova, é o maior presente que podemos receber.
O que em mim anunciava a chegada do novo? Não suspeitava o que seria! Que novo era aquele que chegava em pleno inverno, no outono da minha existência?
Sem que eu desse mais tempo para poder decifrar esse sonho, rapidamente um outro invadiu minha mente, caindo como partículas de mosaicos, e comecei a juntar pedrinha por pedrinha, para entender qual a mensagem que este me trazia.
Surgiu uma cena... Uma foto em preto e branco se configurou frente à lente dos meus olhos, ”foi o encontro com meu amor primeiro”. O que estava por vir? Perguntei-me e fui atrás das respostas.
Da história como enredo, não me lembrei. Esforcei-me até para resgatá-la, mas nada! O que ganhava força eram as fortes sensações viscerais, que o sonho trazia. Quando essas lembranças tomaram forma em meu pensamento, aí sim, o dia acordou. Foi como se as janelas se abrissem e do Inverno se fez Verão. O Sol mesmo ausente marcava sua presença entre as nuvens, tocando-me na pele, aquecia-me, penetrava em minhas cavernas e ternamente, sentia-me abraçada, envolvida, acariciada.
Fui abraçada por um abraço que nunca tive, quando vivi o meu primeiro amor. Só conheci o verdadeiro abraço, reconstrutor, acolhedor, regenerador, curativo, fortalecedor, na minha longa caminhada pela vida, em cada história de chegada e de partida, em cada história de morada, em cada história cativa.
Que homem seria esse que deixei lá atrás na minha história de vida, de amor.
Lembrei-me de Chico Buarque, lembrei-me de Caetano, lembrei-me de meu pai e de tantos outros...
Com Chico, encontrei-me lá bem no início e ele cantou as várias mulheres que poderia compor e desabrochar dentro de mim.Cantou-me e prenunciou-me de várias formas. Mulher guerreira, de Atenas, mulher do cais, mulher mãe, mulher amante...Vestiu minha pele feminina interpretando-a nas canções como “Olhos nos Olhos”, “Pedaço de Mim” e permaneceu em mim feito “Tatuagem”. Ah! Chico, se você soubesse como você me encantou!
Através dele, recordei-me dos bons moços que conheci.Transformaram-se em homens de ouro, em jóias preciosas, compuseram a mais rica safra dos homens que hoje beiram ou passam dos sessenta. Como Chico, eram líricos, provocadores, românticos, participativos da ditadura militar, sonhadores, leais, apaixonados e apaixonantes, confiáveis e confiantes.Escreveram uma “página feliz da minha história”, pois me ajudaram na construção da mulher que trago em mim.
Aquela manhã foi diferente de todas as outras...Trouxe em seu cerne, a gratidão e a certeza, que mesmo o que não foi, deixou lembranças de coisas boas...De tempos felizes...
As mulheres sempre ocupam e ocuparão o lugar da que inspira os poetas, os escritores, que desperta a imaginação.A mulher é sempre cantada em versos e prosa.
Será que já não é tempo de trazermos os encantos do universo masculino, desses dos anos cinquenta, que amavam os Beatles e os Rollingstons, que foram capazes de nos dar um lugar tão especial como Mulher?
Que ainda hoje, quando o Inverno bate na porta para entrar, nossas manhãs ficam mais quentes, porque lembramos que por esses homens fomos amadas e mantem viva dentro de nós a chama do Verão, mesmo que estejamos vivendo a nossa estação outonal?
A todos esses homens que conheci, minha gratidão!
Lindo, maravilhoso. Fiquei encantado como você consegue ser lírica e extremamente clara ao mesmo tempo. Parabéns!
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