Era ela, a Esperança, a companheira que comigo seguia desde a minha infância. Nos encontramos logo cedo e viajamos juntas nos mais diversos cenários da minha vida. Com ela, sentia-me forte, renovada, corajosa, saudável. Com ela enfrentaria “dragões” e mataria um “leão por dia”. Eu não me deixava abater estando ao lado dela e sentia-lhe, na verdade, tão próxima, que não sei se era ela eu ou se eu era ela, tão únicas, unidas numa só alma.
Por muitas e muitas vezes, carregávamos uma faixa com o ditado “A Esperança é a última que morre” e se éramos únicas, eu também não morreria. Ela nunca me abandonou, nem sequer por um segundo.
Juntas, estávamos nas horas de brincar, de torcer, de trabalhar, de comemorar. Sabe, assim? Quando você está numa fila e tem um único de uma única coisa e você está ali, esperando e torcendo para que de tempo de chegar a sua vez antes que acabe, ou se esgote e que aquilo seja seu, e... É! Pois lá estávamos juntas.
...Quando só falta um minuto para você chegar num compromisso importante, interrompe o transito, você quase perde a “Esperança” no meio do turbilhão, e aquela confusão se desmancha, o trânsito fica liberado e você consegue passar e chegar aonde precisava a tempo. Nessa hora, é com ela que você também se reconcilia e quando a reencontra, você diz, viu? Deu certo, “Nunca perca a Esperança”.
Quantas vezes ela aparecia quando eu estava quase desistindo de tanto esperar aquela carta que o correio nunca trás, ou aquele documento que se extraviou, aquela pessoa que você sonha encontrar e desapareceu, ela, a Esperança dizia-me “Quem espera sempre alcança” e, foi assim que seguimos toda a minha existência juntas, até, que um dia, comecei a desconfiar da minha tão querida e companheira Esperança.
Era final de primavera e o sétimo dia de outubro. Num domingo comum, na praia, ainda bem cedo, quando o Sol ainda se espreguiçava em dúvida, se iria atravessar as nuvens, eu acabava de fazer minha caminhada e voltava para meu apartamento quando fomos surpreendidos pelo toque do telefone.
A Esperança tinha ido caminhar comigo, pois como já disse éramos como unha e carne. Quando do outro lado da linha, alguém me noticiou que minha mãe havia sido encontrada caída em seu apto e já havia sido socorrida pelas vizinhas e levada ao Hospital. Botei a Esperança na bagagem de volta e juntas adentramos no hospital onde encontrei minha mãe inconsciente, mas com vida. Eu tinha a Esperança que fosse um mal passageiro, esperamos o dia todo por entre corredores, aparelhos, exames e veio o diagnostico Acidente Vascular Cerebral - AVC. Eu tinha Esperança que não tivesse sido algo tão grave, o que custou a minha mãe uma internação de 30 dias para verificar que estragos aquele AVC tinha provocado e ainda eu esperava que não tivesse sequêlas para que logo minha mãe voltasse à vida normal.
Entre enfermeiros, corredores, UTIs, tubos, ressuscitadores, remédios, ambulâncias, médicos, eu precisava da Esperança mais do que nunca ao meu lado, às vezes, chorando, eu a tirava da sacola, carregava-a, puxava-a pelas mãos, arrastava-a, puxava-a, e ela ressurgia. No tempo plúmbeo, quando tudo parecia acabar, ela ainda triunfava, a Esperança nunca me abandonava. Seguíamos confiantes, cada vez mais amigas, cada vez mais intimas.
Nunca deixei a Esperança se afastar de mim e agora mais do que nunca, fomos juntas por seis meses entre idas e voltas, entre corredores de hospital e ambulâncias, entre lágrimas, recordações, alegrias, medo e tristeza.
Quando enfim achamos que tínhamos vencido, olhei nos olhos de mamãe e foi neles que não mais encontrei a minha antiga amiga Esperança. Foi nos olhos de mamãe que ela havia desaparecido e ainda assim eu a procurei incessantemente, dia e noite, noite e dia por mais quatro dias. De segunda a quinta feira, procurava-a em um novo medicamento, em novos exames, nas palavras do médico. Quem sabe, se mamãe abrisse os olhos, quem sabe, eu pudesse encontrá-la, recolhida, escondida, mas ainda lá.
No dia 21 de abril de 2008, quando mamãe fechou seus olhos para sempre, lá também morreu a minha Esperança. Dia 24 de abril – óbito.
Veio a dor, muita dor, enquanto a Esperança saiu de férias, outros sentimentos vieram visitar-me, conheci mais uma vez a tristeza da perda, que sempre vinha acompanhada de um abraço terno, conheci o medo do abandono, que trazia consigo o conforto, a presença de um amigo que me fortalecia, conheci a generosidade, os verdadeiros amigos, a alegria de não estar sozinha. Conheci tantos outros sentimentos que vinham através das pessoas que comigo estavam. Abri o coração para o novo, e advinha quem encontrei lá? Qual não foi a minha surpresa?! Reencontrar quem nunca me abandonou. A Esperança estava lá, de um jeito diferente, até que eu, somente eu, pudesse convidá-la a caminhar comigo. De você Esperança, de você, minha amiga... Jamais quero abrir a mão!
ESPERANÇA
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Um episódio pessoal contado com muita sensibilidade e sentimento. Uma narrativa descrita com maestria, tendo a Esperança como companheira. Adorei a frase "reencontrar quem nunca me abandonou". Parabéns!
ResponderExcluirQue suavidade em abordar sentimentos tão fortes ! Digno mesmo de uma escritora ! Minha Esperança, andou de férias, mas agora ela também voltou. Assim como você, não consigo viver sem ela. Parabéns, estou adorando ler seus "pensamentos" sobre relacionamentos. Acredite ou não, já estou tirando proveito ! Obrigada . Bjs
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