Contando história...
Tenho ouvido muitas histórias e admiro as pessoas que sabem contá-las e mais ainda aquelas que podem usar as narrativas como uma fonte de crescimento e mudanças. Igual valor dou aquelas que sabem ouvi-las e usá-las como instrumento de transformação.
Contar histórias pode ser um caminho de cura e reparação, reeditar histórias pode ser um caminho de renascimento. As histórias fazem parte da existência humana.
Os relacionamentos humanos trazem em seu bojo, histórias entrelaçadas que narram os mais diversos temas de nossas mazelas. Nosso dia a dia é repleto delas. Contamos as histórias que vivemos, recontamos as histórias que escutamos, e as que vemos. Histórias nascidas de nosso imaginário, crias de nossas percepções e de um jeito próprio de estar no mundo. Reconhecemos a nós mesmos e o mundo através de capítulos e capítulos das histórias que vamos tecendo.
Nossas histórias podem ser românticas, dramáticas, de aventuras, de conquistas, podem ser divertidas e até cômicas.Trazem a tona muitas de nossas emoções, da tristeza a alegria, do amor ao rancor, dos medos e temores. Pomos e tiramos roupas dos mais diversos personagens que compõe nossos cenários e, na maioria das vezes, convidamos alguém ou um grupo de pessoas para estarem no palco, seja na qualidade de protagonista, coadjuvante ou expectador.
Tive o privilégio de conhecer Daniela, uma mulher que nunca se esqueceu de sonhar e viveu... porque sonhava. Seu sonho lhe ensinou a confiar, lhe ensinou a aguardar, lhe ensinou as paixões eternas.
Quando enfim ela terminou de contar-me essa história, estava eu tomada por vários sentimentos, acenderam em mim as velas que nunca podemos deixar apagar, a do Amor, a da Fé, a da Esperança embaladas pelos Sonhos.
Ela não sabia o que a fazia esperar, mas lá ficava ela a esperar, esperando-o voltar. Esperou por mais de quatro décadas e não desistiu de esperar.
A última vez que por ele esperou, foi no findar de uma tarde dourada de Primavera. Seu corpo e sua alma contracenavam com a expectativa, a alegria e o colorido desta linda estação. Era um tempo em que elas se misturavam no amor, na graça, no frescor e perfume dos jardins dos apaixonados. Era assim, neste clima primaveril que ela por ele esperava.
Desabrochava ali a menina-mulher. Intuitivamente ela criou seu próprio rito de passagem, vestiu seu corpo com um lindo vestido floral e sonhava que cada uma daquelas flores lá estampadas pudesse por ele ser apanhada, como um jardineiro que colhe em seu jardim. Nos lábios de cor natural, ainda não tocados pelo primeiro beijo, passou um brilho que se confundia com a luz de seus olhos, já não se sabia se brilhava de excitação ou de prazer.
Ela só sonhava com a chegada, fantasiava cada detalhe, preparava-se para a festa que se prenunciava.Soltou seus cabelos cacheados e imaginou deixar-se acariciar pelas mãos daquele que a tocaria pela primeira vez. Era assim o amor que ela guardava para ele, de entrega, entregaria sua cabeça para sentir o pulsar de seu coração.
E assim ela esperou! Passou a hora marcada.
O que será que aconteceu?
Passou mais de uma hora e ele não apareceu.
Assim passaram-se as horas e finalmente entardeceu.
Daniela desapontada, a ela só lhe restava aguardar um outro dia que, certamente ele viria.
Naquele final de noite, só lhe restava falar com seu vestido florido, lamentou ser tão bonito e que pena por ele não ter sido visto. Propôs então ao vestido que o manteria guardado, seu destino o melhor lugar do armário, mas sempre pendurado.Retirou o batom da boca, que naquela altura da noite, já não brilhava mais e prometeu-lhe usá-lo na próxima noite talvez.
No porta-jóias da cômoda, colocou seu colar de pérolas e o vidro de perfume que juntos aguardariam pelo tempo preciso de espera.
E assim passaram-se os dias, e assim passaram-se meses, e assim passaram-se anos e assim quarenta anos.Ela perdeu o amor da sua vida, mas não perdeu o amor pela vida.Daniela nunca deixou de sonhar, passaram-se décadas, mas na agenda de seu coração, tudo se resumia em semanas. Carregava uma paixão que sabia ser eterna, e esperava o desfecho desse amor não realizado e do beijo que não foi dado.
Trazia em sua memória as melhores lembranças do seu sonho que não parecia ter fim.Trazia a alegria e sorria com as lembranças de quanto estava linda naquele dia que por ele esperou, recordava-se dos seus olhos ardentes da chama da paixão e que hoje traziam o brilho da luz da Esperança.Sabia que haveria o tempo da partida e o tempo da chegada, acreditava que as coisas que não tiveram desfecho, voltariam em algum momento para serem finalizadas.
Fez daquela noite, valer as lembranças que mantinha nas gavetas e armários carregados de amor. Deixou tudo no lugar, os objetos que ela guardou serviam-lhe para lembrá-la, que se deixasse as janelas abertas poderia olhar o Sol que nasceria na próxima manhã.
Daniela sabe no seu coração que seu vestido pendurado está apenas desbotado, mas ainda mantém as flores daquela primavera e que pérolas são para sempre.
Dra. Eliana, você é sensacional. Adora suas narrativas, principalmente esta, pela semelhança com uma história vivida por mim. Mera coincidência. Parabéns. Continuo seu fã!
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